16 março 2018

O conto da Aia, de Margaret Atwood

O conto da Aia (capa)
O conto da Aia, de Margaret Atwood e publicado no Brasil pela Editora Rocco traz o relato de OfFred sobre a sua vida na nova casa em que ela vai morar a fim de poder exercer a sua função como "barriga de aluguel" de um comandante de Gilead.

Gilead é uma região norte-americana em que é instituído um governo ditatorial de viés religioso, depois de várias situações, dentre elas a baixa natalidade infantil.

Toda a base deste governo, como vamos descobrindo durante o relato de OfFred, é de base patriarcal em que as mulheres são tuteladas ou pelos maridos ou por instituições de formação, como o é a escola das Tias, para onde OfFred é levada antes de se tornar Aia e ir para casa do comandante.

Pensando o período histórico externo à obra e que nela vai aparecendo, percebemos que tudo ocorre após os movimentos revolucionários que impactaram os anos 60 e 80 do século passado, principalmente no que se refere ao feminismo.

É justamente em relação a essa questão feminista que o livro dá muitas margens para a reflexão dos caminhos que nossa sociedade tem tomado, contudo não é este o caminho que gostaria de tratar nesse texto, até por não me sentir capacitado para discutir de modo relevante sobre o feminismo.

Queria tratar, neste texto, sobre a forma como a distopia é construída face a forma clássica distópica, verificada dentro de obras como 1984, Admirável mundo novo ou Nós.


Diferentemente dessas obras e algo que fica muito evidente desde o início seja o caráter oral da narrativa. Tudo nos é narrado, e isso pode ser percebido não somente pela primeira pessoa do discurso, mas pelo caráter memorialista, digressivo e comentado do texto, levando a uma organização textual não linear e em alguns momentos mais introspectiva e subjetiva. Também o fato de ser narrado por uma mulher, algo que só começa a ocorrer dentro das narrativas distópicas mais recentes e voltadas para um público de apelo mais jovem e comercial.

O texto, no que se aproxima das obras clássicas do gênero também termina com o exílio do protagonista. Ele é retirado daquele mundo no qual não se encaixa, enquanto toda a estrutura social continua a existir.

Contudo, o grande diferencial, o traço de novidade no texto de Atwood reside no fato de que o que vamos acompanhando é a perspectiva e o momento logo em seguida da instituição do estado ditatorial, diferentemente do que ocorre nos textos clássicos distópicos em que tudo está posto. Isso faz uma diferença enorme para a construção do texto de da relação que estabelecemos com ele, pelo foi assim que aconteceu comigo.

Isso porque, por se tratar de um relato de uma mulher que é atingida diretamente pelo novo estado das coisas e uma mulher que é assim e que ainda lembra e nos narra como era antes do estado atual, evidencia toda a violência que ela sofre nessa transição de estados.

Ela se torna e experimenta algo que está ao meio, cindida. Ela é duas coisas, que tem que se tornar uma e não consegue deixar de ser a outra. Essa cisão causa um profundo traço de solidão. OfFred mais que tudo é solitária, não apenas por estar na condição social em que se encontra, mas também por não poder e ter como compartilhar e externar as coisas pelas quais passa dentro dos seus pensamentos. Talvez seja esse os motivos pelos quais ela resolva contar a sua própria história, rememorá-la; não como um meio de registrar algo para o futuro, mas para conseguir de algum modo se tornar menos só, menos não humana ao vivenciar um processo de desumanização veiculado pelo regime ditatorial em que passou a viver.

O conto da Aia é difinitivamente um texto dolorido, uma concepção que parece nunca ser possível de se realizar, uma angústia solitária de alguém coagido e solitário.

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