03 julho 2017

Quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus

Quarto de despejo (capa)
Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludo, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo. (p. 37)
Entrei no quarto do despejo. Entre tantas coisas sujas e envelhecias vi um livro. E também o rádio. E vi Carolina escrevendo em seu diário. 

Vi. Porque a narrativa de Carolina é tão forte que permito-me usar o verbo “ver” e não o “imaginar.” Carolina apresenta o cotidiano de uma catadora de papel por uma poética da sensibilidade, seu diário toca os sentidos e seus personagens estão para além das pessoas envolvidas na vida da autora como os três filhos: Vera Eunice, José Carlos e João José e outros moradores da favela. E uma das personagens mais presentes e tocantes dessa história:
E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual—a fome! (p. 32)
A fome absorve a narradora de forma que ela dividi com o leitor reflexões sensíveis e críticas:
Resolvi tomar uma medida e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos. (p. 44)
A escolha da cor que carrega uma melancolia fina, que choca e enternece quem seguras as páginas de Carolina. Que apesar de falar de muitas dificuldades não coloca-se como vítima, mas como uma voz que realiza uma denúncia:
A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso paiz tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquíssimos. E tudo que está fraco, morre um dia. (p. 39)
O tom coloquial, os desvios à gramática padrão marcam a formação de mulher autodidata que tinha na leitura um prazer:
Li um pouco, Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem. (p. 24)
Como a rotina de Carolina não sofre muitas alterações é possível ao leitor "espera" que o buscar água no poço, catar papel, fazer comida, ler, dormir... se repita permeado pelos comentários e devaneios da autora. Assim, quando Carolina adoece e esses processos são alterados é como se houvesse um clímax no relato:
José Carlos disse-me:
-Sabe mamãe quando a morte chegar eu vou pedir para ela deixar nós crescer e depois ela leva a senhora. (p.159)
A imagem das crianças em volta da mãe doente é algo que só o diário pode trazer ao leitor. Os escritos de Carolina são para o sentir...

Por isso, deixo o convite:
Entrem no quarto.

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Um comentário:

Ronrone à vontade.