03 abril 2017

Homens Elegantes, Samir Machado de Machado.

Homens Elegantes (capa)
Um verdadeiro romance de capa e espada. É assim que podemos classificar, a princípio, o romance de Samir Machado. Digo a princípio, pois, embora haja muito de romances do estilo que consagrou Alexandre Dumas (pai), há, nele, algo de muito particular.

Em 1760, o soldado brasileiro Érico Borges é enviado a Londres com uma missão: investigar uma rede de contrabando de livros eróticos para o Brasil. Acostumado com a vida de restrições impostas pela coroa portuguesa à colônia brasileira. Érico se deslumbra com os luxos e excessos da alta-sociedade europeia. Até o momento em que em seu caminho cruza uma trama que pode arruinar tanto Portugal como Brasil – uma rede de espionagem conduzida por aquele que se tornará seu maior inimigo, o ambicioso conde de Bosolnaro.

Essa é a sinopse da quarta capa e que, a meu ver, se equivoca ao dizer dos deslumbramentos de Érico e a rede de espionagem.

Sobre esse deslumbramento, ele acontece, é verdade, mas em nenhum momento isso atrapalha a missão a qual Érico se dedica. Já no que se refere à rede de espionagem, ela se mostra um desdobramento do que ele vai descobrindo e das relações com as quais ele vai travando ao longo do romance, que é dividido quase como um estrutura de ópera, com os seus dois Intermezzo sobre o par romântico da narrativa.

No que tange a estrutura narrativa em relação ao narrador, há aqui uma coisa curiosa, já que ele sabe o que se passa com as personagens, o que ela pensa, incluindo por vezes os pensamentos como se deixasse a narrativa aos cuidados dela (discurso indireto livre). Em outros momentos, se imiscui por meio de outros gêneros literários, como correspondência ou texto teatral. Há, inclusive, o momento em que ele se apresenta e participa da história. Outro ponto interessante se refere à diagramação de ações que acontecem ao mesmo tempo, de bastante fôlego, que são dispostas em colunas duplas, indicando assim visualmente que estão lado a lado.

Como dito anteriormente, há muito de romances de capa e espada, muita ação, tiros, coisas quebrando, intrigas políticas e, claro, longas descrições e comentários sobre  vida e os hábitos da corte inglesa. Também há, para quem gosta do assunto, muitas informações sobre a produção, modos de circulação e indicativo de recepção de obras literárias desse período, que precede a Guerra dos Sete anos e é posterior ao terremoto que destruiu a cidade de Lisboa, em 1755. Contando-nos assim, parte de uma história intrincada das relações diplomáticas entre Inglaterra, Espanha, Portugal e França.

Em meio a isso tudo, um casal do mesmo sexo. E é aqui que Samir novamente surpreende, já que toda a pesquisa sobre livros e costumes do período das Luzes já nos dá bastante assunto para ficar surpreso. Com esse casal, além de tratar sobre a questão de como a homossexualidade era vista no período, ainda mostra os mecanismos que eram usados para se manter discreto e longe de encrencas com o judiciário, evocando também discursos e atitudes que até podem ser considerados um tanto distantes do que talvez ocorresse no período, mas que dão um ar vivaz e de emponderamento das personagens e de quem as lê. Samir também enumera e comenta muitas obras que trazem em suas entrelinhas os amores entre iguais.

Há beleza em como nada é perdido ou dito de forma aleatória. Vemos durante o romance coisas comentadas, que parecem triviais e são, bem mais a frente, retomadas pelas outras personagens ou em outros contextos, evidenciando assim o cuidado do escritor com o texto e com a pertinência do que é dito.

Homens Elegantes é um grande romance, e não falo isso pelo seu tamanho: 576 páginas. É grande porque nos faz rir, enternecer (talvez até dar uma choradinha), perder o fôlego e querer descobrir o que há por trás de toda essa rede de tramas.

E, embora o romance, publicado em 2016 pela editora Rocco, tenha me parecido facilitar um pouco no início algumas descobertas, o desenlace é mesmo de fazer gargalhar (e bem que o fez com as próprias personagens da história).

O livro foi uma das sugestões de leitura para o #FFDesafioLGBT do mês de Fevereiro.

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Gostou da dica de leitura? Já leu o livro? Comenta aí embaixo e vamos conversar! 
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Um comentário:

  1. CONDE DE BOLSONARO É O MELHOR NOME DE VILÃO EVER!!!!!!!!
    Muito bom ver autores nacionais tão criativos e aproveitando nossos contextos brasileiros para criar boas narrativas!!! :D Nossa História é rica demais, dá pra aproveitar muito na Literatura - tanto para temas, quanto para cenários e personagens. A diversidade enriquece muito.
    Beijos, obrigada pela dica!
    Nati

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