27 abril 2017

É AGORA COMO NUNCA

Poesia incompleta
 

Incompleto aqui é adjetivo que caracteriza da forma mais adequada, não necessariamente pejorativa, a ANTOLOGIA INCOMPLETA DA POESIA BRASILEIRA. Escrito na capa em fonte visualmente mais legível que o título da seleta organizada por Adriana Calcanhotto para a Companhia das Letras.

É agora como nunca (capa)
E ela vai logo avisando que é muito difícil escrever poesia depois das vanguardas do Séc. XX; que “‘Agora’ quer dizer este momento, aqui mesmo, enquanto mal traço estas linhas e novos poetas estão surgindo em catadupas, produzindo e publicando em sites, blogues, revistas eletrônicas, recitais, saraus e até mesmo em livros”; e que “o poeta brasileiro contemporâneo está ligado e ciente da sua provocação no pós-tudo-enfim-por-vir”.

Quanto a estar ciente me parece benevolente da parte de Adriana, que observa esta geração - a minha - subsequente à geração dela, como agora eu observo a conversa de meus alunos adolescentes millenials, que em qualquer época "pós-tudo-enfim-por-vir" se acham muito espertos e provocadores. Porém, a minha geração (Y) tem entre 18 e 35 anos, justamente as pessoas que estão no mundo e já deixaram (ou deveriam ter deixado) a adolescência. 
como ficou chato
ser comtemporâneo
serei instantâneo
agora
como ficou chato
ser instantâneo
serei autômato
agora
ae10-i6-o16-u14
c7-f2-gh2-m5
n8-pl-r7-s6-t9             (André Vallias)


A geração Y não inventou a insatisfação. Adriana Calcanhotto é da geração de Cazuza e Kurt Cobain, dois notórios insatisfeitos. Eu assisti a um show dela quando tinha uns 12 anos, com meus pais, e ela era engraçada, contou piada, dançou, cantou o hino do grêmio, e passou sem sequelas pela ressaca dos anos 80 e 90. O que há agora, com ou sem necessidade de entorpecentes, é a Ansiedade. E a Depressão.

Não estou defendendo a minha geração, pelo contrário, a impressão que tenho é que ter depressão é cult. Mas a ansiedade é um mal generalizado e parece ser o Fio de Ariadne da organizadora para definir a escolha dos poemas.

Trouxeste a chave? é a pergunta de Drummond... e os poetas nesta geração tem uma chave tatuada no braço, ou no antebraço. Todos querendo ter uma sacada genial, prosaica, que se completa em seu próprio discurso – como o arremate irônico de um stand up comedy – e quase só isso. Gregório Duvivier foi um bom aluno de letras, alguns são professores de cadeiras universitárias, mas só com o tempo poderemos avaliar a importância e o valor historiográfico dessa poesia instantânea. Talvez a geração blogger possa ser uma futura geração mimeógrafo. Mas, de lá, Ana Cristina C e Torquato Netto chegaram de carona num balão mágico dirigido pelo sucesso editorial da poesia completa de Paulo Leminski. A maioria perdeu o bonde.


O que se perderá dessa leitura, dada a velocidade com que mudam os suportes e a vivência de nossa época instantaneamente diluída, é justamente o agora, a noção deste momento, tão efêmero e tão caro ao nosso tempo, agora mesmo.  

Laura Liuzzi, que é uma das mais consistentes poetas do livro e de quem um verso dá nome à antologia, fecha/não fecha o livro:


Fio sem fim
                                                           para Armando
Chega-se, enfim, à última página   
embora deixe claro: não se chega
ao fim. Um mesmo fio fino frágil
mas firme, da mesma fibra de rio
conduz memória e história: storage
– está estendindo para sempre
e para sempre soará, suará
a cada renovação do sol, mesmo
quando atingirmos o final –
 mesmo assim não se chegará
ao fim.

Lembrando que você pode adquirir qualquer um desses livros ou outros por meio desse link da amazon: http://amzn.to/2kJJW4r e colaborar com uma pequena comissão para o blog.

Gostou da dica de leitura? Já leu o livro? Comenta aí embaixo e vamos conversar! 
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