30 março 2017

UM LANCE DE DADOS JAMAIS ABOLIRÁ O ACASO?


Mallarmé entre o caos e a ordem no ocidente.

Toute Pensée émet un Coup de Dés

Há 120 anos Stéphane (na verdade Étienne) Mallarmé lançava na revista Cosmopolis o seu Um Lance de Dados. Professor de inglês do ensino médio, e posteriormente redator de revistas sobre moda e comportamento, Mallarmé estava antenado a seu tempo. Publicou no famoso Parnaso Contemporâneo. Conheceu Verlaine e Rimbaud no fatídico jantar em que Arthur mijou nos parnasianos. Ele descreveu Rimbaud como um “cometa” e que “seu silêncio deveria ser respeitado”.  Ele havia tomado o comportamento explosivo de Rimbaud emprestado, para quase duas décadas após o silêncio do colega, e um ano antes de sua própria morte, implodir a Poesia.

Solidão, recife, estrela (Salut)

Bem diferente da movimentada casa da Rue de Rome em Paris, quando escreveu Um Lance de Dados o poeta vivia recluso em Seine-de-Marne, na zona rural. Segundo Julia Kristeva sua melancolia por ter perdido o filho Anatole, aos 10 anos, o transformara em um “habitante do imaginário” onde “o tempo não passa”. Para ele o filho só morreria definitivamente quando ele próprio morresse (Pour utombeau d’Anatole). 

Noite, desespero e pedraria (A única preocupação da viagem)

Em francês, hasard, termo de origem árabe assim como azar, não significa agouro. Mesmo em português nos referimos a “jogos de azar” àqueles que demandam sorte, assim como “entregue à própria sorte” como um sinal de destino não necessariamente favorável pela frente. Provavelmente Mallarmé estivesse fazendo um movimento para sair do abismo onde se encontrava na direção do céu noturno, e ao explorar as constelações que parecem pedras preciosas espalhadas pelo amplo espaço eterno e vazio, acaba dissolvendo o mal que o acaso o trouxe em equilíbrio arquitetônico, e, segundo Augusto de Campos, funda o pós-modernismo: “desse primeiro poema funcionalmente moderno, futuro-demais para sua época, equação poética que vale por si só todo o vozerio das vanguardas reformadoras de alguns anos depois”.
 







Augusto de Campos chama a época atual de “pré-modernidade”, visto o romantismo polarizado e verborrágico das opiniões pessoais em redes sociais nos últimos anos; e o apego antiestético à forma sólida e vertical com que nos comunicamos, lendo como em papiros, rolando mensagens de cima para baixo. 


Em Un Coup de Dés Mallarmé não propõe encerrar o acaso ou o azar, mas permite um equilíbrio entre os fatores imutáveis da vida, quando explora no espaço em branco as múltiplas possibilidades de leitura, podendo ser lido lateralmente ou mesmo recombinando versos com termos acima ou anteriores nas páginas espelhadas, como quando se observa um mapa celeste ou as constelações no céu noturno. 



O jogo começa com o Mestre de uma nau naufragada que lança os dados do fundo de um abismo de eternidade ao futuro, que o Poeta antevê, em seu periscópio com a “mão crispada/ para além da inútil testa/ legado da desaparição/

                                                              alguém

 ambíguo

                                               o ulterior demônio imemorial” ( trad. Haroldo de Campos)


De fato nossa época é ulterior (que chega depois) e imemorial (imensamente antiga). mais de um século o terror abissal e a novidade revigorante caminham juntos. Mallarmé antecipou a era absolutamente estética, a fusão entre oriente e ocidente, a presença constante da eternidade e a irreversibilidade quântica do tempo. Parece que depois dele ninguém morreu. Convivemos com Duchamp, Mondrian, Einstein, Gullar, Haroldo de Campos, Basquiat, como se estivessem vivos (e estão ). A moda orgânica hipster e os Beats convivem com a moda sintética e apocalíptica dos anos 80 lado a lado. A tecnologia é atraente mas estimula conflitos. Tudo diluído em
                                                                                  
                                                                                                           Núpcias
cujo
            véu de ilusão ressurto ânsia instante
            como o fantasma de um gesto
                                                    vacilará
                                                    se abaterá
                                                                       insânia

                                                                                 
JAMAIS ABOLIRÁ    

As vanguardas, todas, como o concretismo dos irmãos Campos ou o marxismo dentro da noite veloz de Gullar serviram à era do consumo em que estamos começando a viver, em sequência à era industrial, e que Mallarmé, com seu Um Lance de Dados, por sorte ou azar, também ajudou a criar, quando a leitura em um único objeto estético, e não mais desmembrado em poemas retirados de um volume e apresentado em jornais e periódicos, mais  a necessidade de compilação em um livro estava lançada junto com o poema.

Mas assim como o Barroco levou quase 400 anos para diluir-se entre canções populares e a vanguarda (nacional e mundial) concretista, talvez seja preciso mais alguns séculos para que a proposta de Un Coup de Dés seja introjetada em nossa vida cotidiana, se é que essa visão multívoca, plural, multidimensional e simultânea da existência já não esteja se engendrando, como vemos na expansão constelar das lutas pelos direitos de igualdade, e não apenas na massa disforme de anúncios publicitários e placas comerciais pelas ruas do mundo.

Todo pensamento emite um lance de Dados



P.S. O texto acima nasceu do acaso e da necessidade enquanto tentava ajustar um artigo acadêmico sobre o Barroco na pós-modernidade para o formato desta coluna.



ALEA JACTA EST

Lembrando que você pode adquirir qualquer um desses livros ou outros por meio desse link da amazon: http://amzn.to/2kJJW4r e colaborar com uma pequena comissão para o blog.

Gostou da dica de leitura? Já leu o livro? Comenta aí embaixo e vamos conversar! 
 Não deixe de curtir a nossa página no FB e de se inscrever no nosso canal no youtube.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ronrone à vontade.