23 fevereiro 2017

Solidão pós-moderna


A poesia como terapia

Aqui me tenho
como não me conheço
          nem me quis
sem começo
nem fim
          aqui me tenho
          sem mim
nada lembro
nem sei
      
à luz presente
sou apenas um bicho
          transparente             
 (Um Instante – Ferreira Gullar)

O poema de um poeta já maduro, depois de muitas perdas (como o filho Marcos e os anos no exílio) e anos incertos no futuro, incita, dadas as informações que citei, uma trégua de si mesmo com o tempo. Mas o poema não carrega a biografia do autor no corpo do texto.

O poema pode também servir para um instante desconectado do celular num espantoso reencontro com o bicho que somos, simplesmente. 


Apesar de não versar sobre o tema, o poema foi feito à época (início do século e da era das redes) do livro “modernidade líquida” de Zygmund Bauman, que nos informa sobre nossa busca esvaziada:

não há mais ‘O Grande Irmão à espreita’; sua tarefa agora é observar as fileiras crescentes de Grandes Irmãos e Grandes Irmãs e observá-las atenta e avidamente, na esperança de encontrar algo útil para você mesmo: um exemplo a imitar ou uma palavra de conselho sobre como lidar com seus problemas (...) que só podem ser enfrentados individualmente.

A própria ideia de “individualização” ou da apresentação dos membros da sociedade como indivíduos é algo recente. É só pensar na mudança das redes sociais desde o Orkut e suas “comunidades”, passando pelo Facebook e a enxurrada de opiniões compartilhadas (não necessariamente individuais) e a utilização do Instagram, que pergunta “o que você está vendo?”, e ter como resposta a intimidade de seus usuários; intimidade que já não podemos chamar de “individual”.

Mesmo o que chamamos “sociedade”, segundo Bauman, é renegociado a cada dia nas redes: novas regras são criadas que solapam as regras herdadas, fazendo surgir novas regras comportamentais e criando novos prêmios em jogo constantemente.

Quais as consequências de um jogo em que as regras são criadas enquanto se joga sem saber qual prêmio se busca? ­– transtorno de ansiedade, tem sido a resposta recorrente dos terapeutas.

Rimbaud disse na “carta do vidente”: – é preciso ser absolutamente moderno!

E por consequência:

Acabei por considerar sagrada a desordem do meu espírito. Estava ocioso, vítima de febre alta: invejei a felicidade dos animais (...)
Meu caráter se azedava. Dizia adeus ao mundo numa espécie de canção:
Canção da mais alta torre:
Ah, que o tempo chegue
em que o amor nos cegue!
A alma arrefece,
a paciência é vã.             (Alquimia do verbo)

Os poetas – faróis (e girafas) da humanidade – há mais de um século vem discutindo as características da ideia de “liberdade individual” advinda da modernidade.
Se os homens vivem na barriga de uma baleia 
só podem sentir frio e falar
dos cardumes periódicos de peixes e de muralhas
escuras como uma boca aberta e de cardumes
periódicos de peixes e de muralhas
escuras como uma boca aberta e sentir muito frio.
Mas se os homens não querem falar sempre da mesma coisa
tratarão de construir um periscópio para saber
como se desordenam as ilhas e o mar
e as demais baleias – se é que existe tudo isso.
E o aparelho há de se fabricar com as coisas
que temos à mão e então surgem
desagrados, por exemplo
se de nossa casa arrancamos uma costela
perdemos para sempre sua amizade
e se o fígado ou as barbatanas, é capaz de matar-nos.
Estou achando que vivo na barriga de uma baleia
com minha mulher e Diego e todos os meus avós. 


(Sobre Jonas e os desalienados – Antonio Cisneros)
Antonio Cisneros evoca um dos arquétipos mais antigos para falar de uma solidão cada vez mais “acompanhada”, por milhares, ou mesmo milhões de seguidores.

Mas quem aceita o contrato com a rede social, Faustos digitais, somos nós, os “usuários” – palavra também designada para amenizar a condição de viciado em algo.

Para Bauman:
O que leva a aventurar-se no palco público não é tanto a busca de causas comuns e de meios de negociar o sentido de bem comum e dos princípios da vida em comum quanto a necessidade desesperada de “fazer parte da rede”. Compartilhar intimidades, como Richard Sennett insiste, tende a ser o método preferido, e talvez o único que resta, de “construção de comunidade”.
Temos notícias cada vez mais frequentes de uma situação limite em relação à fazer-se “parte da comunidade digital”: pessoas que antes do suicídio comentam sobre seu desespero (não esperar literalmente) nas redes sociais.

Vivemos em tempos líquidos de uma sólida solidão.

O grande Joseph Campbell nos diz que o papel simbólico do herói é nos emprestar o caminho percorrido para que possamos vencer uma batalha sem o sofrimento e a energia desprendida por ele. O poeta nos acena (com mão feérica):
Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus mas que nasce das mãos e do espírito dos homens.
E pergunta:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
(...)
Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
   de vida ou morte –
   será arte?                           (Traduzir-se – Ferreira Gullar)

A solidão na era da hiperconectividade (e seus sintomas) é tão recente como a própria era digital em que vivemos. Os estudos aqui citados de Zigmund Bauman, ao mesmo tempo que elucidam, também demonstram que um longo caminho de mudanças se anuncia. Enquanto vamos nos desvendando, por trás dos véus da realidade, a poesia nos ampara e estimula, mesmo que o assunto seja a nossa maior fragilidade, desde que nos agrupamos nas cavernas para combater o frio, criar imagens e uma linguagem poética para alimentar a alma.

Não sou Ninguém! Quem é você? 
Ninguém – Também? 
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar! 



P.S. Todos os poemas apresentados foram traduzidos por Ferreira Gullar no volume o prazer do poema: uma antologia pessoal da editora Edições de Janeiro, exceto Não sou Ninguém de Emily Dickinson traduzido por Augusto de Campos no volume homônimo da Editora Unicamp. 


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