26 janeiro 2017

Leitura à beira do abismo


Poesia de Wislawa Szymborska


                Discurso do Nobel 1996
            Ao que parece, a primeira frase do discurso é sempre a mais difícil. Pois bem, essa eu já deixei para trás... Mas sinto que as próximas também serão difíceis(...) porque tenho que falar de poesia.
            Toda imperfeição é mais tolerável se oferecida em doses pequenas.

Zygmund Bauman, polonês, sociólogo e perseguido tanto por nazistas como por comunistas, assim como Szymborska, em texto que trata do mal-estar na pós-modernidade pergunta: “substituir os deuses pelo homem e o conceito de sociedade são típicos do moderno; subjulgar tudo à razão humana pela razão humana; porém a vontade humanista se atrofiou até o nada. Como isso sucedeu?”

Fim e começo
Depois de cada guerra
Alguém tem que fazer a faxina.
Colocar uma certa ordem
Que afinal não se faz sozinha.

A poesia de Wislawa nasceu partidária como a de Maiakowski, em muito devido à óbvia oposição ao nazismo, mas logo renasceu, evoluiu e ajudou a construir a partir da distante Polônia comunista o que Bauman chama de pós-modernidade: “artistas pós-modernos, ao se esforçarem para representar o espírito de sua era (...) mais que qualquer outra coisa retratam e expressam a ausência do original”

Era para se chegar à primavera
E à felicidade, entre outras coisas.

Apelidada de Mozart da poesia, Wislawa escreve em tom leve boa parte de sua obra, em versos livres e utilizando alegorias tiradas da natureza, mas com desenlaces contundentes, de um realismo sem expectativa de recuperar o tempo perdido e que não vislumbra glória futura, em acordo estreito com os conflitos da atual mudança de era.

Em perigo a holotúria* (*pepino do mar) se divide em duas
com uma metade se entrega à voracidade do mundo,
com a outra foge
desintegra-se violentamente em ruína e salvação,
em multa e prêmio, no que foi e no que será. (...)
Em uma margem a morte, na outra a vida.
Aqui o desespero, lá o alento. (...)
Também nós, é verdade, sabemos nos dividir.
Mas somente em corpo e sussurro interrompido.
Em corpo e poesia.
De um lado a garganta, do outro o riso,
leve, logo sufocado.
Aqui o coração pesado, lá o não morrer muito
Três palavrinhas apenas, como três penas no voo.

O abismo não nos Divide.
O abismo nos circunda.

O trabalho de uma vida da tradutora Regina Przybycien, no Brasil e na Polônia, assim como os dois volumes em parceria com a Companhia das letras (poemas, 2011 e um amor feliz, 2016) devem ser congratulados, pois sem esse esforço não teríamos acesso à essa obra de Poesia premiada com o Nobel de literatura, caso raro entre os ganhadores.

Poetas e escritores
É assim que se diz.
Logo, poetas não são escritores, então o que –
Poetas são poesia, escritores são prosa – (...)
Que diferença é essa,
perceptível apenas na penumbra,
sobre o fundo de uma cortina bordô
com franjas violeta?

 Pessoalmente fiquei muito tocado com seu discurso que me pareceu familiar e me fez lembrar minha avó polaca. O poema A casa de um grande homem parece muito a descrição que ela fazia de meu bisavô, que veio com a família entre o cessar fogo da guerra franco-prussiana e a primeira guerra mundial, com quem convivi pouco, e consta que fabricava tudo que possuía. Ou no poema Sobre morte sem exagero, que me lembra como ela, no hospital, distribuiu tarefas futuras a todos da família, pouco antes de morrer, e advertiu à uma prima: “o segredo da vida é sair sem deixar ninguém com rancor de você... nem dívidas, de preferência” (e ria com o corpo todo).

Não entende de piadas,
de estrelas, de pontes,
de tecer, minerar, lavrar a terra,
de construir navios e assar bolos
Quando falamos de planos para amanhã
intromete sua última palavra
sem nada a ver com o assunto.

Há diversos momentos de singeleza em sua obra como o encontro consigo mesma em adolescente, ou entre tantos encontros íntimos com a natureza o de instante.

Mas talvez o mais comovente em sua obra seja a descrição de como transitam as pessoas na dinâmica da guerra e a banalidade dos conflitos modernos, que pela liquidez com que recebemos as informações em nossa era hiperconectada, tornou-se impossível parar para realmente refletir sobre elas, como em Fotografia de 11 de setembro, ou mais universalmente no poema Certa Gente, que serve como descrição para minha família no fim do Séc. XIX, para o que a própria Wislawa viveu na segunda guerra, ao genocídio bósnio nos anos 90 quando assisti chocado à  morte de crianças da minha idade pela TV, ou para a atual guerra na Síria, pois segundo ela própria em seu discurso do Nobel “não há um mundo óbvio. Nosso espanto existe por si só e não resulta de nenhuma comparação com coisa alguma”...

Certa gente fugindo de outra gente.
Em certo país sob o sol
e algumas nuvens.

Deixam pra lá certo tudo o que é seu,
campos semeados, umas galinhas, cães,
espelhos nos quais agora se fita o fogo.

Trazem às costas trouxas e potes
quanto mais vazios tanto mais pesados a cada dia.

No silêncio alguém cai de exaustão,
na algazarra alguém rouba de alguém o pão
e o filho morto de alguém é sacudido.

À sua frente uma estrada sempre errada,
uma ponte, mas não a de que precisam,
sobre um rio curiosamente rosado.

Ao redor uns disparos, ora mais perto, ora mais longe,
no alto um avião meio rodopiante.

Viria a calhar certa invisibilidade,
uma parda rochosidade
ou melhor ainda a inexistência
por um tempo breve ou mesmo longo.

Algo ainda vai acontecer, mas onde e o quê.
Alguém ainda vai lhes barrar o caminho, mas quando, quem,
em quantas formas e com que intenções.
Se tiver escolha,
talvez não queira ser inimigo
e os deixe com alguma vida.

O discurso da Poeta para o Nobel encerra com o seguinte parágrafo:

É fato que na linguagem coloquial, na qual não se pondera sobre cada palavra, todos usamos termos como ‘o mundo comum’, ‘a vida comum’, ‘a ordem comum das coisas’... Entretanto, na linguagem da poesia, na qual se pesa cada palavra, nada é comum ou normal. Nenhuma pedra e sobre ela nenhuma nuvem. Nenhum dia e depois dele nenhuma noite. E acima de tudo nenhuma existência do que quer que seja neste mundo.
Pelo visto os poetas sempre vão ter muito que fazer.

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