30 janeiro 2017

A estrutura do Mito da Destituição em "O Evangelho segundo Jesus Cristo", de Saramago

O Evangelho Segundo Jesus Cristo
(capa da edição de Bolso, Cia das Letras)
Recentemente eu li o O Evangelho segundo Jesus Cristo, do escritor português José Saramago e publicado pela Companhia das Letras e fiz um vídeo sobre o livro pensando a sua estrutura narrativa em torno dos temas “livre arbítrio” e “culpa”, por meio dos espelhamentos existente em situações e ações presentes no romance (o vídeo está disponível ao fim desse texto).

Contudo, essa é apenas umas das muitas coisas que podem ser abordadas nessa obra de Saramago, assim como foi apenas uma das que me chamaram atenção, sendo por isso que, além do vídeo, senti a necessidade de escrever esse texto, que como já explícita o título, abordará a estrutura de mitos, mas especificamente, mitos que tratam da destituição de um pai/rei por um filho/criança.

Na tradição literária encontramos várias narrativas que dão conta desse tema. Basicamente, todas a gerações dos titãs aos deuses olímpicos se estruturam nesse tipo de narrativa; Uranos foi destituído por Cronos, que foi tirado do poder por Zeus, por exemplo. Em geral essas narrativas acompanham a presença de oráculos ou pessoas com dons premonitórios e a tentativa de fuga do destino que os espera no futuro.

Na Bíblia também temos isso e, por conseguinte, também o temos nessa obra específica de Saramago, que aborda justamente os episódios da vida de Cristo.

Nessa narrativa temos Herodes que ordena a morte das crianças até 02 e 03 anos, já que uma profecia afirmava que uma delas lhe roubaria o trono, tornando-se lugar dele o Rei dos Judeus. Com se dá nessas histórias, há sempre aquele que escapa e que, por isso, trona-se o escolhido. De acordo com a narrativa bíblica, este é Jesus, que como sabemos, recebeu a alcunha de o rei dos Judeus, algo que Saramago justifica em sua obra de uma maneira bastante interessante.

José Saramago.Fonte: Google Imagens.
A profecia, mesmo que de modo simbólico se torna realidade, Herodes é destituído como rei dos Judeus pela criança que escapa da condenação à morte por ele dada, mas há aqui algo que destoa das narrativas tradicionais e não é apenas na questão simbólica do ser “rei”.

O Herodes que recebeu a profecia já estava velho e doente, é um humano. Mesmo que uma criança viesse a lhe destronar, isso levaria bem uns 15 anos no mínimo, já que precisaria que ela atingisse pelo menos um pouco mais de maturidade a fim de realizar o dito pelo profeta. Logo, torna-se estranho que este Herodes tenha ficado com tanto medo de perder o seu posto. A menos é claro que ele tenha cogitado a ideia de uma regência nesse meio tempo, o que também não parece ser o correto, já que isso passaria por uma resolução romana, tendo em vista que Herodes era um rei cliente de Roma, em Israel.

Mas acontece que Jesus, a seu modo, destrona Herodes, que nesse caso é o filho sucessor de Herodes, que vem a ser Herodes Antipas. E aqui é que as coisas se tornam mais interessantes.

Os Herodes são distintos mas revelam a permanência que temos nas figuras dos deuses e titãs, por exemplo, haja vista que a utilização da alcunha Herodes torna-se quase como um título, algo que marca essa permanência, como se uma entidade fosse, como se evidenciasse não uma pessoa, mas um modo de governo ou de agir e ser.

E é assim, que ocorre a seu próprio modo a reatualização do mito da destituição, que fica bem mais evidenciado no romance de Saramago, seja por ele se preocupar mais com a narrativa do que a própria Bílblia se preocupa, haja vista que o autor português dedica boas páginas para falar sobre os medos de Herodes, pelo início do romance, bem como, ao seu fim, justificar o Jesus ter se tornado o Rei dos Judeus.



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