22 dezembro 2016

Memória e Poesia, Ferreira Gullar



A tarde caía quente e céu mostrava uma grande nesga azul, acompanhada de meu par, voltava de uma longa caminha pela cidade maravilhosa. Chegando à  Rua Duvivier 49, paramos para atravessar a rua. Foi quando ele apertou a minha mão e com um sorriso disse “Olha quem está ali na janela.” Fiquei congelada! Era ele. Parado, com um olhar que parecia esperar alguém, os cabelos brancos e a camisa de botão me hipnotizavam... Poucos metros me afastavam dele. No meu frenesi, só consegui erguer a mão fazendo um adeus tímido, quase bobo. Meu companheiro disse incrédulo "Isabelle, o que você tá fazendo?”, e eu com toda sinceridade que cabe em alguém que não acredita no que vê: “Eu não sei”. Continuei acenando e, não sei se por dúvida ou gentileza, lá de sua janela ele acenou de volta. E nesse átimo de tempo, tudo que ele representa para mim fez sentido.  Assim foi, meu encontro com o poeta Ferreira Gullar.
E agora, o homem da janela partiu.


Recordando esse dia me pergunto:


O que marca o nosso tempo aqui?
O que faz que, ao deixar este lugar, uma vida seja lembrada?


Antes de pensar sobre isso convido o leitor para uma viagem, volto para o início...


A minha relação com Gullar começou pela minha paixão por um tema que sempre me fascinou: a criação literária (!). Gosto de saber, conhecer, entender o processo que faz a página em branco ganhar vida. E, para quem aceita o desafio da aproximação com a poesia, de tomá-la como estudo, ela se torna uma aventura de descobrimento, de revelação, de encontro. Com Gullar foi mais que estudo. Foi paixão.

Fui conhecer sua trajetória. Permeada por encontros, embates, convergências, choques e desencontros ideológicos, não foi um caminho sereno. 

A começar por seu primeiro (e não reconhecido) livro de poemas Um pouco acima do chão (1949) publicado em São Luís, que traz a formação parnasiana do poeta, quando ele ainda dedicava-se com exaustão às redondilhas e decassílabos.

Em 1954 considerada como expressão própria (agora sim, reconhecido), os poemas de A luta corporal, que o aproximou de autores como os irmãos de Campos, inauguram a experimentação da linguagem e a busca por sua essência. Como esquecer de “Roçzeiral”? Da construção caótica da poesia. Esse livro abriu meus sentidos. Todos eles.

E falando em sentidos,  lembro dos poemas Neoconcretos (Em 1959, por dissonâncias com os irmãos de Campos, Gullar organiza e lidera o Neoconcretismo), que para além de todas as possibilidades poéticas de forma e temas, são poemas que tem movimento. Desses, meus preferidos...

mar azul
mar azul marco azul
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul
(GULLAR, 2004. p. 87)



Você pode sentir essa onda?
girafa                                           farol
gira

 sol        

girassol                                         faro
                                                          (GULLAR, 2008. p. 91)
Esse giro, rodopio, luz e cor?


Após essa experiência Neoconcreta, temos uma fase que pouco me agrada, pois a linguagem panfletária de Romances de Cordel não me apetece. Ao fim desse período, o poeta passa treze anos em silêncio, sem publicações. Quando retoma (período da ditadura militar) apresenta Dentro da noite veloz (1975), meu livro mais querido. Trago um de seus versos em minha pele. 



Depois veio sua obra-prima: O poema sujo(!), um texto longo, 93 páginas, um poema de memória, um resgate da infância e da juventude num relato que derrama a linguagem, esse poema lido por Gullar é algo inexplicável... “turvo turvo...”
Nesse instante, percebo que esta coluna já segue extensa. Será que me abandonaste falando de meu amor sozinha leitor?
Para o leitor que ficou, conto que essa viagem pela memória está terminando, estamos Na vertigem do dia, esse livro apresenta uma mudança de perspectiva. O tema do exílio é o centro de alguns de seus poemas, que falam da vida nas cidades por onde viveu, da angústia de sua situação e principalmente, a cicatriz deixada pela clandestinidade. 

A voz do poeta
Não é voz de passarinho
flauta do mato
viola
         Não é a voz do violão
         Clarinete pianola
         É voz de gente
         (na varanda? Na janela?
         Na saudade? Na prisão?)

         É voz de gente – poema:
         É fogo logro solidão
            (GULLAR, 2008. p. 264)


Passando por Barulhos(1987) e Muitas Vozes (1999) um outro Gullar, uma poética mais prosaica e reflexiva, a maneira de perceber o mundo se concretiza por questões recorrentes, mas com um tom mais suave... “O poema é uma coisa/que não tem nada dentro, a não ser o ressoar/ de uma imprecisa voz/ que não quer se apagar/ essa voz somos nós”.

Agora, leitor que ainda me acompanha, estamos Em alguma parte alguma (2010), o último livro, os poemas finais(?) de algo que se encontra em lugar nenhum, e tem o cosmos, a linguagem e as artes plásticas como matéria de poesia.
Ao fim desse percurso, dessa viagem mnemônica, retomo as perguntas...


O que marca o nosso tempo aqui?
O que faz que ao deixar este lugar, uma vida seja lembrada?
Para mim é o que  deixamos para os que ficam.
E Gullar, deixou muito.

Engajado à vida e a necessidade de reinventar a si e ao mundo,  deixa a poesia. 
Sua poética compreende questões que sempre irão me atravessar por muitas dimensões: humana, estética, histórica e filosófica, tudo isso a partir de uma lente que me foi dada, a lente que só a poesia tem: a percepção que extrai do cotidiano, cerne dos versos de Gullar, o olhar sobre a vida.

Ele ainda está aqui. Presente por meio dos galos, do mar azul, do cheiro da tangerina, das frutas em cima da mesa, dos jasmins, da corola, dos insetos, da paixão pelos gatos, das bananas podres, das perdas, dos amigos ausentes, do olhar para mim mesma num viés biofísico sobre o osso da minha perna, da transformação do meu corpo...
E no presente significado todas as vezes que eu mirar uma nesga azul no céu... 


Quando  já não for mais possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
                    pensa
                       ao veres no horizonte
                       sobre o mar de Copacabana
                                        uma nesga azul no céu
                    pensa que resta alguma coisa de mim
                    por aqui
                           Não te custará nada imaginar
                           que estou sorrindo ainda naquela nesga
                           azul celeste
                           pouco antes de dissipar-me para sempre

                           (Um pouco antes. Em alguma parte alguma, p.71)

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