30 novembro 2016

Matéria de poesia, Manoel de Barros

“AS COISAS SEM IMPORTÂNCIA SÃO BENS DE POESIA”

A primeira vez que li esse verso cada pedacinho de mim estremeceu. Como se cada palavra entrasse em meu corpo em um pequeno frenesi. Cada palavra. 

Por isso, na coluna de hoje, não falo de livro. Falo de um poema; Matéria de Poesia de Manoel de Barros, poema do livro homônimo que li em Manoel de barros, Poesia Completa (Leya, 2013). 

Nesse poema, como diria Bachelard, “há palavras que sonham”. Manoel com uma sintaxe particular fez provocações ao meu lugar comum, suas construções fizeram repensar minhas certezas semânticas. Desafiada por um vocabulário dúbio, impreciso, me deixei levar pela poesia, como se estivesse juntando minhas primeiras sílabas, como se aprendesse a ler.

Nos primeiros versos o poeta me transportou para a infância “Todas as coisas cujos valores podem ser/ disputados no cuspe à distância/ servem para poesia.”, para a brincadeira de criança, para a imagem que agora adulta considerava escatológica. Pois hoje, até o ato de cuspir no chão me parecia inadequado. Mas o poeta, não me deu escolha(!), pegou a menina de minha memória e trouxe para ler o poema.
 
O homem que possui um pente/ e uma árvore/ serve para poesia/ Terreno de 10x20, sujo de mato – os que/ nele gorjeiam: detritos semoventes, latas/ servem para poesia/ Um chevrolé gosmento/ Coleção de besouros abstêmios/ O bule de Braque sem boca/ são bons para poesia/ As coisas que não levam a nada/ têm grande importância/ Cada coisa ordinária é um elemento de estima”. Em seus versos o popular e o erudito caminham de mãos dadas, pois tanto a repulsa ao gosmento como a contemplação à obra de arte (“Bule de Braque”, Georges Braque pintor e escultor francês) servem para a poesia.

“Tudo aquilo que a nossa/ civilização rejeita, pisa e mija em cima,/ serve para poesia/ Os loucos de água e estandarte/ servem demais/ O traste é ótimo/ O pobre-diabo é colosso”; O trecho que considero mais duro desse poema. Pois o poeta nos lembra que dentro da sociedade civilizada não há lugar para a poesia, que está à margem. Assim os elementos rejeitados “servem demais”, como o “pobre-diabo” que para a poesia tem proporções gigantescas.

“Tudo que explique/ o alicate cremoso/ e o lodo das estrelas/ serve demais da conta” Mais uma vez o poeta exige que meu conforto semântico seja mexido, pois ao colocar palavras que me remetem ideias opostas e harmoniza-las leva os meus sentidos às últimas consequências(!): uma nova textura para o alicate, um novo olhar para as estrelas.

“O que é bom para o lixo é bom para poesia” No verso, o não dito me permite mais. E amplia as possibilidades O que é bom para o lixo? Será que o que eu julgo bom para o lixo é o mesmo que uma sem teto jogaria fora? Na ideia vaga há infinita completude.

“As coisas jogadas fora/ têm grande importância/ - como um homem jogado fora/ Aliás, é também objeto de poesia saber/ qual o período médio que um homem jogado fora/ pode permanecer na Terra/ sem nascerem em sua boca/ as raízes da escória” Ao fim do primeiro fragmento desse poema preciso respirar. Há tanta crítica e denúncia nesses versos que é necessário parar um pouco. “Um homem jogado fora”, a linguagem coloquial, a maneira que o homem é colocado enquanto coisa torna-se atemporal. Quantos homens já jogamos fora?



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