27 outubro 2016

Personas: O Bardo e O Nobel

Shabtai Zisl ben Avraham é o nome Yiddich-ucraniano de Robert Allen Zimmerman, nascido em Duluth, que viveu até os 17 anos em Hibbing antes de entrar, em Minneapolis, na universidade de Minnesota, estado de onde ele nunca havia saído até abandonar a universidade no primeiro ano e sair pelo país com seu violão “assassino de fascistas” com um objetivo: apresentar-se para Woody Guthrie, seu ídolo (que se encontrava em estado quase terminal num hospital em Nova York), com o condinome Bob Dylan.

Resultado de imagem para bob dylan
O prêmio Nobel é político desde a origem. Alfred Nobel leu o obituário de seu irmão Ludwig, publicado por engano em um jornal francês, chamando-o de “mercador da morte” por conta dos explosivos que haviam inventado usados com finalidade militar. Daí criar uma premiação para os que “no futuro servissem ao bem da humanidade”.

O Nobel já premiou um português inventor da Lobotomia com o prêmio de medicina, Winston Churchill com o de literatura, alguns inimigos de George W. Bush (que promoveram bombardeios sistemáticos no Iraque na Síria) como Al Gore e Barak Obama com o da paz.

Bob Dylan é contra qualquer político americano. Qualquer político.

O Nobel de literatura é distribuído desde 1901. Foi interrompido apenas 3 anos durante a Segunda Guerra e já premiou Yets, Mann, Hemingway, Eliot, Hesse, Shaw, Camus, Faulkner, Saramago (depois da saia justa em que Dario Fo deixou a academia sueca) o que dá prestígio ao prêmio sem dúvida. Apesar de críticos reclamarem que um Neruda ou o “chatola” do Beckett (e Sartre que não aceitou, assim como Pasternak) não merecem o prêmio mais que um Kafka ou um Joyce ou um Maiakovski.

Dylan produziu muito: musical, poética e literariamente. Segundo a academia sueca levou o Nobel de literatura "por ter criado novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana", motivo com o qual muitos discordam (ouvem-se as reclamações no vento); apesar de ele ter antecedido Martin Luther King no discurso “I have a dream”;  escrito letras como um poeta beat nos anos 60 (Like a Rolling Stone tinha 17 páginas que levavam 27 minutos para ser cantadas antes da versão final); de ter revolucionado o Rock até deixar os Beatles chapados (em duplos sentidos); de ter baladas românticas gravadas por todo canto (aqui no Brasil de Caetano  até o Skank); de ter se tornado cristão e entoado cantos (de levar um Roberto Carlos às lágrimas) que entraram para a parada pop  como Knocking on Heaven’s Door; de ter protestado contra a prisão de Rubin Hurricane Carter com uma letra épica; de ter antecipado o cinismo do discurso politicamente correto atual em Jokerman; de ter escrito um excelente livro de crônicas que poderia ter sido escrito por Jack Kerouac... Bob Dylan viveu a experiência de ser um “João ninguém rimbaudiano” nas estradas da América segregada, fascista, racista e selvagem para as minorias... conjunto da obra que aparentemente empurra Dylan de volta à persona fundamental... o garoto que saiu de Minnessota para conhecer Woody Guthrie com o violão e revolucionou a cultura mundial.

Como disse (o ressentido) Lobo Antunes “Tantos grandes não ganharam nada. Tolstói, não ganhou nada. Todos os prêmios são aleatórios. Derem a quem derem vão discutir. Eu não daria. Deram àquele pronto. Não tenho que discutir. Quem sou eu para dar opiniões?”... Ok, um prêmio é só um prêmio... mas e quando se despreza o prêmio mais incensado e respeitado que existe?

A academia sueca conhece a política americana e ocidental e sabe muito bem como quer se posicionar. Talvez a academia sueca não tenha percebido que ao dar o prêmio para quem tratou com desdém a maior comenda, do país mais poderoso do mundo, pelas mãos do presidente mais respeitado da história recente... quem acenava com um gesto de despedida afastando o indicador e o dedo médio da testa, típico dos hipsters da estrada originais, era o garoto de Minnessota que abandonou a academia tocando letras do seu bardo Woody que dizem que a sua terra é sua e minha, que sem os russos comunistas os aliados não venceriam os fascistas, que esses mesmos fascistas estão na América e no ocidente livremente segregando negros e estrangeiros... fascistas destinados ao fracasso.
Resultado de imagem para bob dylan

A poesia lírica surgiu ligada à música nos ditirambos dionisíacos e talvez seja a primeira forma de arte ligada às palavras desde a origem de nossa espécie. Desde Platão e mais diretamente Aristóteles métodos são criados para explicar o que é poesia e a distinção da literatura... só um verdadeiro bardo pode nos acenar que não é a academia que entende de poesia... definitivamente.


Gostou do texto? Comenta aí embaixo e vamos conversar! 
 Não deixe de curtir a nossa página no FB e de se inscrever no nosso canal no youtube.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ronrone à vontade.