28 outubro 2016

A Condessa Sangrenta, de Alejandra Pizarnik

A Condessa Sangrenta,
Tordesilhas, 2009 
Alejandra Pizarnik (1936-1972) foi poeta argentina, uma das vozes mais representativas da geração setentista e considerada uma das poetas líricas e surrealistas mais importantes do país. Um dos textos mais longos que escreveu foi este A Condessa Sangrenta, publicado na Espanha em 1971, primeiro romance da autora publicado no Brasil. Alejandra faleceu no ano seguinte, como consequência de uma profunda depressão.

A Condessa Sangrenta é um romance baseado na vida da condessa húngara Erzsébet Báthory, torturadora e assassina de mais de 600 moças. Sim, apenas moças. As ilustrações são de Santiago Caruso; também argentino, o artista é formado pela Escola de Belas Artes Carlos Morel e integra, desde 2007, o Catálogo de ilustradores argentinos publicados pelo Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires.

O posfácio é de João Silvério Trevisan que de início fala da repugnância e fascinação causadas pela história da condessa, e acrescenta que “são muitas as evidências do lesbianismo da condessa como canal de expressão da barbárie”.

“Adolescentes belas, e não rapazes, constituem os alvos da sua crueldade, com direito a detalhes emblemáticos, como introduzir círio aceso no sexo da vítima”, segue dizendo Trevisan como meio de sustentar a sua tese de lesbianismo.

Entre páginas de sangue, percebe-se que a família Báthory há muito era conhecida pela crueldade e que, o casamento entre familiares pode ter resultado nas mais diferentes divergências psicológicas. Casais de irmãos que se apaixonaram e casaram, uma tia chamada Klara que assassinou os dois primeiros maridos, um tio tão louco que acreditava que o verão era inverno e seguia de trenó pela areia.

A Virgem de Ferro, ilustração de Santiago Caruso
Entre os instrumentos de tortura: espetos, tesouras, velas… Mas a figura mais estranha é a “Virgem de Ferro”, uma espécie de autômato que abre os braços para o abraço da morte. Erzsébet andava sempre junto a duas velhas criadas, Dorko e Jó Ilona, que tentavam diverti-la durante o dia. Dezenas de trocas de roupas, horas admirando e experimentando jóias e identificando defeitos, até que uma das costureiras, eventualmente, era condenada à algum tipo de tortura – a mais branda delas: ficar totalmente sem roupas o dia todo.

Desenhado pela própria condessa um grande espelho fazia parte dos dias, admirar a si mesmo diante dele era atividade que tomava algumas das horas. A autora não pretende explicar a figura que foi a condessa húngara, porém observa que ela “padecia do mal do século XVI: de melancolia”.

O espelho, ilustração de Santiago Caruso
“Uma cor invariável rege o melancólico: seu interior é um espaço cor de luto; nada acontece ali, ninguém entra. É um palco sem cenários, onde o eu inerte é assistido pelo eu que sofre por essa inércia.”

Dizia a condessa amar “o labirinto, que significa lugar típico onde sentimos medo; o viscoso, o inseguro espaço de desproteção e do extraviar-se”.


A condessa Erzsébet mostrou fascínio pela juventude, desde os primeiros momentos da velhice. Foi praticante de magia e as mortes das garotas aparentemente estavam relacionadas a preservação deste aspecto. A primeira feiticeira que a acompanhou por muitos anos sumiu, misteriosamente. Ao ser acompanhada por uma nova feiticeira novas soluções foram dadas para tentar atingir a almejada juventude.

Ainda no posfácio, João Silvério Trevisan diz que há aqueles que alegam falta de precisão nos crimes que foram atribuídos a ela. Falam também sobre exageros devido ao período estudado ser aquele em que foram popularizadas histórias de vampiros. Para Trevisan, há que se considerar ao menos o mito, “e mitos existem para catalisar fantasias coletivas que integram a sombra da psique humana”. Fato é que em um caderninho escrito pela própria condessa foram encontrados nomes de moças desaparecidas, inclusive nomes nobres, aparentemente eram pronunciados no meio de uma espécie de prece. Tudo isso aparece no romance que realmente faz sumir o fôlego.

A obra tem 60 páginas, li rápido e senti alívio quando concluí. É intenso, mais do que o horror o terror está lá em cada expectativa do que virá. É uma mostra do humano totalmente liberto e, talvez por isso, horrível.

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