06 setembro 2016

As Brasas, Sándor Márai

As brasas (capa)
As Brasas, do húngaro Sándor Márai foi publicado pela Cia das Letras em 1999 e, no decorrer de suas 164 páginas, conta-nos o reencontro de Hendrik com Konrad. Um reencontro após 41 anos sem se verem.

Hendrik recebe logo pelo fim da manhã uma correspondência informando que Konrad está de volta. Então manda busca-lo em seu hotel para que possam jantar juntos e conversar. Uma conversa que é esperada no longo desses 41 anos e 43 dias, como específica Hendrik, para si mesmo em seu quarto. Uma conversa que pretende solucionar acontecimentos passados que levaram até a situação em que eles se encontram.

A narrativa é em terceira pessoa, alguém nos conta a história dos dois meninos que frequentaram a mesma escola preparatória em Viena, que passaram férias, moraram e prestaram serviço militar juntos. No entanto, essas passagens da vida e mesmo as considerações que delas podem ser feitas as são por meio de um solilóquio de Hendrik.

É Hendrik, ao fim, que nos conta a história dos dois amigos, e não o narrador. Ao narrador cabe fazer as ligações entre as partes da narrativa, descrever e nos situar no tempo e no espaço.

As brasas do título sugere justamente essa espera da personagem em solucionar esse ponto de seu passado que lhe fez companhia nesses 41 anos e 43 dias, como o que resta de algo surpreendente.

Há no enredo uma suposição, para quem lê assim, de que os dois rapazes tenham tido alguma espécie de relacionamento sexual entre eles, algo que ultrapassou a relação de amizade “tradicional” entre homens, algo que hoje seria considerado um “bromance”. Todavia, eu discordo dessa interpretação.

Há uma passagem em que Konrad solicita ao amigo que eles sejam castos. A menção da mãe de Hendrik em certo momento de que “finalmente um casamento que havia dado certo” ao olhar os meninos partindo de volta ao colégio, depois de mais uma temporada na casa de Hendrik, não precisa se referir necessariamente ao amor sexual, mas sim no sentimento amoroso, em uma afetividade que um dedica ao outro. Fora os outros acontecimentos no decorrer da narrativa.

A questão que talvez deva ser pensada sobre essa interpretação é: por que um relacionamento mais afetivo entre meninos deveria indicar uma relação amorosa? E, a partir dessa pergunta, viriam outras sobre o nosso comportamento atual de definir esses tipos de relação, que não precisam ser sexuais, mas tão somente afetivas, de carinho, como “bromance”, ao invés de simplesmente amizade, como o que ocorre nas amizades femininas?

É um ponto que está enraizado em nossa cultura, sobre como os homens devem se comportar com outros homens, em uma relação mais de cordialidade do que de afetividade. Para se ter qualquer tipo de carinho ou comprometimento é necessário que haja aí algo além do que a simples amizade entre homens, é preciso que haja um interesse amoroso.

Isso não é privilégio apenas de homens heterossexuais, infelizmente. Mesmo entre gays é confusa essa relação de afeto entre dois homens que não estejam envolvidos amorosamente, pois sempre há a ideia de que pelo menos um quer algo mais que a amizade.

Aliás, o livro tem passagens que poderiam ser consideradas como verdadeiros tratados sobre esse assunto: a amizade e o amor; e são belíssimas.


A escrita de Márai é muito aconchegante e fluida, ainda que a perspectiva de uma única pessoa falando e comentando o romance praticamente inteiro nos pareça cansativa.

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