29 setembro 2016

Age de Carvalho in a semiotical blues

O título do livro mais recente de Age de Carvalho sugere que ele, de certa forma, ainda vive em Belém. Mas, como ele mesmo deixou claro no lançamento do livro durante o Simpósio Tradução e Memória da UFPA, e no instituto Moreira Salles no Rio, pouco vem aqui, e tem vindo mais frequentemente para editar a obra de Max Martins.

A atitude beat no título “Age de Carvalho Ainda: em viagem”, no texto é, em muito, sobreposta por um feixe de sentimentos que envolvem nostalgia e “fantasmagonias de Belém”, atravessando paredes nos últimos cem anos, entranhando no discurso um cronotopo, nomeado pelo professor Fábio Castro em seu livro Cidade Sebastiana, de semiotical blues.

A capa do livro estampa um céu de verão europeu, jovens das quais vemos os cabelos, no centro uma palmeira e no fundo uma fotografia invertida cobrindo a lateral de um prédio onde se vê parte do rosto e a boca de uma mulher jovem em tons de azul, um outdoor provavelmente, tudo parecendo um recorte ready-made do título e do semiotical blues a que me referi. Há, já na capa, um tom moderno e melancólico.
Asazul, o cityhopper, nuvem nos pés,
o céu-sempre
em cima.

O que
não me afasta de ti
me leva de volta
para casa.
Segundo o professor Fábio Castro, é próprio da modernidade certa sensação de ganho e perda – diante das inovações do moderno. E a modernidade em Belém, cidade periférica do capitalismo triunfante, pode ser compreendida como “alegorética”. Ou seja, tem-se a sensação de que aqui realmente ouve uma modernidade ligada aos grandes centros, o que fora perdido – sem nunca ter sido. O Ser-moderno pleno, que nunca existiu, é reproduzido apenas no lugar de fala da classe médio-aristocrática que habitou o último século na cidade, e que se pensa herdeira de uma metrópole esvaziada: o débâcle da dita “Era da Borracha”.

O poeta foi questionado nos dois eventos que citei sobre o português por vezes castiço que utiliza (como exsudavam ao invés de suavam). Questionamento exagerado já que cabe ao poeta dar novo significado às palavras da tribo:

...esfinada
   voz que
   silva na mata... (Vozes)

Na arquitetônica, além do spleen belemense, o texto é imantado pelo concretismo paulistano; saltos cabralinos na progressão que Age atribui à sintaxe da língua alemã já entranhada em seu pensamento; e há muito do existencialismo heideggeriano/sartreano tão caro à “turma do central” que ele frequentou mesmo que tardiamente (já sem Clarice Lispector e Mário Faustino), representados em leituras na casa de Benedito Nunes pela presença de Francisco Paulo Mendes e (óbvio) Max Martins.
O Dasein é desfolhado da persona do poeta (em formas mais e menos eruditas):

 EU, INTIMO-ME                     [para-si?]
 a reconhecer-

(em ti, contigo
 em viagem – nós[...]
 tu, era eu-todo-estrelado,
o céu, espelho)

-me em
Mim-mesmo                               [em-si?]

João Age de carvalho é arquiteto e um formidável designer gráfico com uma carreira consistente. Não é um “artista brasileiro exilado na Europa”, segundo ele próprio (porém é um exilado da língua portuguesa). É a partir da relação fraterna e do intercâmbio poético com Max Martins (um vero estranho estrangeiro), que Age adquire voz própria, sendo mais contundentemente o Poeta Age de Carvalho:
Andar juntos
                                                                     
Dois pontos
na distância, vistos
do alto desses anos:
eramos nós
descendo, manoelbarata, a cidade
a caminho do centro
gasparviana santantonio frutuoso
de nós
mesmos, mercedários
pelos pés alados da poesia,
campossales sempre
na direção de quem
vem, vai e foi
num abril de 80, castilhosfrança
até o mercado quando
começamos a andar
subindo a recém-praçadoaçaí
para sair no alto
do forte,

juntos                
               
O Poeta, de fato conversa conosco, com sua família e sua memória com palavras que para ele são, depois de 32 anos de Europa (mais tempo lá do que cá), um refúgio seguro no ventre da terra-mãe. Mora aí, no que há de provinciano, na prosódia local, no “estoque de sotaques”, a dimensão humana desse poeta que é, dentre um emaranhado de referências, universal:

Salinas, Marahu, pipira, deus-senhor, mangueira, bananeira-anã, ramo seco de cidreiras, vigília, Cremação, amigo morto, pai morto, irmão morto, Círio, Círio, Círio, filho...


Antes do desmaio

“não posso te ver pai”

Mas estou aqui.
Cai – te amparo.
Cai – te espero

no segundo dourado quand’onde
alados, vislumbraremos todas as comunicações,
os quatro tronos escarlates, maio
ao sol, Vesper adest consurgite, a consolante
mão aberta

da queda.  

                                       


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