25 agosto 2016

Marcas,Terceira Noite e Agridoce, de Lucas Lopes Valadares

A coluna de hoje traz o autor mineiro Lucas Lopes Valadares que presenteou a equipe do Folhetim Felino com seus três volumes publicados pela Liro editora: Marcas (2010), A terceira Noite (2014) e Agridoce (2016).  Sem mais delongas, vamos aos títulos:

Em sua primeira publicação Marcas, o autor em um breve prefácio justifica o título do  livro:

“ Nestes versos encontra-se uma parte de mim, uma parte de mim que a maioria das pessoas jamais poderia entender, neles, coloco sentimentos que tive, sentimentos que tenho e sentimentos que jamais ousei expressar, por isso, estes poemas são, para mim, marcantes e eu gostaria de dividi-los com alguém.
Poucos de meus poemas têm título, pois, são narrativas da mesma história, todos são parte de mim, uma história que registro diariamente e não posso deixar de escrever. ”

 Os poemas que seguem tal prefácio ficam em torno de um tema central: a dor da perda. Que autor nos confirma já no segundo poema “Parte de mim morreu”, em  que há uma dedicatória in memorian. Os poemas são divididos em cinco capítulos (ou seriam cinco estágios do pesar?): Primórdios, Contos de esperança, Memórias, Marcas e Orfeu.
 
Em todos os capítulos o sofrimento é latente nos versos.  Aqui percebo um equívoco  muito comum: a forma como a poesia sempre nos foi apresentada, como sentimento do Eu, o que o autor nos deixa claro desde o prefácio. Então, percebo que Marcas é livro em que o autor  tentou usar a palavra para passar pelo dolorido processo de luto.
"Meus pensamentos tropeçam em tragédias pessoais /Levam-me para baixo /Torno-me um escravo do medo  /Não lutarei mais por um santuário perdido" (p. 31)
Ele se aproxima da estética romântica. Mas apesar de algumas passagens lembrarem os românticos do séc. XIX, como o pessimismo, não há o labor com a palavra, próprio da linguagem poética.

No livro  A terceira noite o mote do autor é a criação poética. No decorrer dos versos, o poeta trava uma peleja consigo e com a tessitura dos poemas. Mas, que escritor nunca falou sobre a luta com a palavra? Um tema clássico, mas que, se versado de uma forma insistente e indefinida, pode ser uma desventura.
“Pedaços de papel cortado,
onde fiz um poema.”*
“Tento refazer nestas linhas tortas, As linhas que outrora lineares eram.
Tiro-as do aperto em meu peito,
Fartas, transbordam por meus olhos”.*

O autor insiste em deixar o “velho eu romântico” familiar ser maior que o poema, eu o identifico do outro lado dos versos como um desabafo que pode causar enfado ao leitor pelas emoções prolongadas.  Alguns elementos são constantes nos versos: o silêncio, o relógio, as paredes do quarto...
ChronosEntre os ponteiros do relógio,
A parede se estreita.
Torno-me, então,
Prisioneiro de meus pensamentos.
Tragado pela maré da noite, tento fugir.
Esperoem silêncio,
Mas, só o silêncio vem.
O tempo passou por mim.*
“Rasgo a memória,
Atormentado pelo silêncio do relógio,
Noite a dentro oculto-me de mim.”
“Vou transpor minhas próprias paredes
Deixar que o relógio chegue as quatro”.*

Como uma confissão constrangida e incômoda, a peleja com a palavra por ser exaurida com elementos que não se ressignificam  acaba comprometendo o que poderia ser a poética deste livro.  Pela forma que são apresentados, os versos são imaturos. Há muitas possibilidades que não são exploradas, possivelmente, pela ausência de dedicação aos poemas. O que, num livro que tem na  criação poética  grande motivo, é uma pena.

Em Agridoce, mais uma vez, o autor coloca uma breve ideia do que o leitor encontrará em suas páginas:
“Guardo aqui pequenos poemas com emoções doces e salgadas.
E acima de tudo um sabor que se enraizou em mim:
puro como água,
doce como mel,
agridoce,
como só uma alma pode ser.”

Com uma edição uma pouco mais delicada, o autor parece encerrar o ciclo que traz em seus livros anteriores. As referências à criação poética ainda permanecem:

“Para sobreviver
Comprei um lápis, uma caneta e um papel
Rabisquei um poema que em seguida rasguei.”(p.27)

Pelo título desta última edição, o que supõe-se é que teremos um carnaval de sensações, e que os sentidos seriam esmiuçados de forma poética. Engano. Pois, o que encontramos é um convite para pensar o agridoce literal como em “Laranja e Sal”:
“Coloquei um pouco de sal na laranja
Para sanar a tosse que me arranca o ar dos pulmões
E uma vez tocado pelo gosto agridoce, estremeci” (p.29)
“Quente, gelado, doce e amargo.
Sigo agridoce.” (p. 24)

De uma forma geral, considero as publicações de Lucas Valadares despretensiosas, pois, ele deixa claro que não pretende fazer alta Literatura. Como nos diria Pound: “Literatura é linguagem carregada de significado.  Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.  Enfim, literatura é novidade que permanece novidade.”

Assim, penso que o autor tem seu mérito ao buscar na poesia amparo de coisas ausentes e distantes, ou mesmo, o alento que só a palavra permite, o que para um leitor que compartilhe de seus anseios pode ser suficiente.

 *(as páginas do livro não tem numeração)


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