28 julho 2016

Despedida do poeta



O Poeta Rimbaud, em correspondência a Paul Demeny, diz que “é preciso ser vidente, fazer-se vidente”, e que, “O Poeta se torna vidente por um longo, imenso e deliberado desregramento de todos os sentidos”. Isso que à primeira vista fulgura uma ode à transgressão, aos seus olhos (de uma temível indolência verde-azul) parece antecipar a realidade.

Seu livro Une saison en enfer (com tiragem de 500 cópias encontradas intactas em Bruxelas trinta anos depois) parece antecipar seu futuro inferno africano no poema de entrada - mordendo a coronha de fuzis; sufocado nos areais; em seu próprio sangue; secando no ar do crime. 

Arthur Rimbaud é tido como um enigma, uma personalidade a ser desvendada, em parte por sua “despedida” da poesia aos 20 anos, e em parte pelo espírito de liberdade que teria-o levado (para longe do prestígio literário) ao isolamento e à solidão.

Com o relançamento de Rebeldes & Malditos da L&PM podemos ler em ótimas traduções "uma temporada no inferno" e as correspondências de Rimbaud, desde antes da primeira ida a Paris até o fim de sua vida, o que nos ajuda a entender o homem, mas não desfaz o mito.

Muitas são as teorias sobre os motivos de Arthur ter abandonado a poesia, mas em seu livro de estréia, podemos reconhecer escolhas que ele tomaria em sua vida futura: claramente o estilo de 'uma temporada' vai da famosa introdução homônima até 'delírios'. Os últimos quatro textos em prosa: O Impossível, O Clarão, Manhã e Adeus, que imitam as crônicas de Russeau, são mais próximos do estilo de Illuminations, seu segundo livro. 
Em Adeus lemos:
"outono já!(...)  e temo o inverno por ser a estação do conforto(...)  Eu!Que tinha me dado por mágico ou anjo(...)  me enganei?(...)  Sim, a hora nova é a menos severa.  Pois posso dizer que a vitória está garantida: o ranger de dentes,   as labaredas de fogo, os suspiros enfermos se moderam. Todas as lembranças sujas se apagam.(...)  É preciso ser absolutamente moderno.(...)  E na aurora, armados de uma ardente paciência, entraremos nas cidades esplêndidas." 
Com esse diálogo poético Rimbaud conversa com o futuro, o dele e o nosso. Quanta paciência é preciso para a vida nas cidades? Para o emprego, o trânsito? Quantas horas novas precisamos para apagar o rastro da vida de trabalho duro e falta de perspectiva? Ele inaugura o horizonte do sujeito "absolutamente moderno", em constante luta para garantir o futuro incerto.

Artur traça e segue seu destino, e depois de alguns anos a pé pela Europa, voltando sempre doente para casa, embarca para a África e Oriente Médio e nunca mais volta à Europa, até onze anos depois, para morrer.

Ao sofrer com a realidade local, muito pior que o domínio burguês Europeu, sem escolha, o oprimido vira opressor, e chega a traficar armas e talvez escravos.

Em sua última empreitada, tentando traficar fuzis para o rei de Choa, numa viagem que dura meses pelo deserto e lhe consome o resto de saúde debilitada, é assaltado pelo rei que deveria lhe comprar as armas – manda deixá-las ali e ir embora. Arthur fica com a dívida, e tem meses pela frente para retornar pelo deserto, com um câncer se desenvolvendo em seu joelho.

Ao chegar em Harar sua situação é tão crítica, que ele organiza uma expedição para levá-lo ao porto mais próximo, trezentos quilômetros pelo deserto, carregado por 16 empregados negros em uma padiola improvisada. Embarca então para Marselha, onde morrerá.

Segundo Henry Miller em A hora dos assassinos, Isabelle, sua irmã que o acompanha no hospital, relata que pouco antes de morrer, com o câncer alastrado pelo corpo, ele que berrava de dor e desespero, transformara-se em um semblante calmo, com a voz mansa, passando a descrever colunas de ametistas, de anjos, paisagens e vegetações de beleza ainda desconhecida. 

Estaria Rimbaud fazendo poesia novamente? Sendo vidente? Isabelle reconhece o estilo das descrições ao ler Illuminations anos depois, e percebe que aqueles eram versos novos. Horas antes da morte, enquanto a irmã tenta confortá-lo, pela última vez, responde em versos livres: “J’irai sous la terre/ et toi, tu marcheras dans le soleil” (eu irei pra baixo da terra, e tu caminharás debaixo do sol).

Ferreira Gullar em seu recente texto Rimbaud: eu é um outro, diz que “a história desse poeta genial, que desprezou a glória literária e a sociedade capitalista, nos ensina que, se a poesia não nos salva, tampouco nos salva a fuga para supostos paraísos primitivos, situados ‘antes’ do capitalismo. A solução ao que parece está no futuro”.

Futuro que, vidente, Rimbaud vislumbrou.

O Poeta Arthur Rimbaud morreu no dia 10 de novembro de 1891, aos 37 anos.

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