30 junho 2016

Dois em um, Alice Ruiz S

Um livro pode nos trazer experiências que vão além da Leitura. O livro certo, no  momento certo, pode ser propício ao sonho e a reflexão, ao significado tremendo daquilo que só a literatura permite viver.

Entre os meus preferidos,  há um livro.
Um livro vermelho.


Um livro que volta e meia retorno a ler, me perco, me esqueço, fico ali naquele mundo de vice versos, minimal em rimagens...

Dois em Um de Alice Ruiz S.

O livro foi um presente. Um dos poucos livros que li de uma forma diferente, pois sentia que era um livro pra se ter por perto, como um desses livros que a gente abre em qualquer página e acha que o acaso vai nos enviar uma mensagem direcionada. Na verdade, nunca gostei muito desse tipo de livro (exemplo: Minutos de sabedoria) e apesar da proposta de leitura para o livro de Alice Ruiz S claramente não ser essa, com Dois em Um concordo em participar desse jogo.

Sorteio uma página.
Sinto o que leio.
Mas, nunca fecho o livro. Vou lendo um, dois, três poemas... O livro acaba.

Trata-se de uma edição publicada pela Iluminuras que reúne as obras  de Alice Ruis S publicadas até a década de 80: Vice Versos, Minimal ,  Rimagens,  Pelos Pelos, Paixão Xama Paixão, Navalha na Liga e Até 79. Neles, além dos poemas temos os haikais.

E como haikai é poesia condensada, esse livro me proporciona pequenas doses de prazer.

A beleza do haikai está na capacidade da poeta dizer tudo em tão pouco espaço. A folha em branco é uma viagem de possibilidades e o dito deixa espaço para o não dito.

Como minha leitura de Dois em Um foi peculiar, proponho uma resenha parecida: sem começo, sem meio, sem tema específico e sem fim (podendo acabar na primeira ou na segunda página, como a vida), apenas comentários honestos de cada página que o acaso nos der nesta leitura que seguiremos em conjunto.
fazia noites
eu não te via
vagalume de dia
(p. 87)
Vagalume, a presença nos escritos de Alice que não se pode deixar de perceber : Leminski!

Mas, eu não quero falar de Leminski. Próxima página!
primeiro verso do ano
é pra você
brisa que passa
deixando marca de brasa
(p.83)
A solidão não mostra-se como um estado de tristeza, mas de contemplação.(Como não lembrar da poeta reclusa?) Nela, a poeta parece ter uma companheira que lhe permite estar mais perto da natureza. A solidão permite a percepção dos pequenos encantos invisíveis  como a brisa.
11/7
pressuponho que existe
memória na morte
de dentro dela um calendário
feliz aniversário
(p.56)

11/7
a data de hoje
a data da tua vinda
fosse outro ano
seria vida
(p.71)
Esses poemas de mesmo nome estão em livros diferentes: Mininal e Rimagens, respectivamente. É um dos temas mais duros presentes na obra da poeta, neles a dor da  lembrança mais cruel para qualquer ser humano, que ela transforma em doída poesia, a perda do filho Miguel.
o tempo leva
o poema
que o ventro trouxe
por um  momento
viver foi doce
(p.78)
há de vir no vento
admirado de si mesmo
esse advento
(p.87)
Os versos de Alice não passam incólume às dores da perda, mas a poeta parece cuidar suas dores através da natureza, a presença desses elementos demonstra o equilíbrio de um eu-lírico que está em harmonia com o universo e nele encontra alento.

No primeiro poema o tempo pode configurar-se como um mensageiro e o tempo que traz, mas também, leva reminiscências de um momento feliz. Novamente  a efemeridade da vida, da coleção de dias felizes. No segundo poema, o vento é um ser que traz esperança e o fato de da palavra advento conter a palavra vento confirma a ideia, pois advento tem o significado de chegada. Assim, a personificação das coisas parece ser maior que a presença de pessoas, a relação de respeito e cumplicidade de Alice Ruiz S com os seres naturais.

A organização visual  de alguns versos traz referencias aos poemas concretos em que  a disposição das palavras contribui para a completude da mensagem. No poema a seguir percebe-se que os versos sugerem a intimidade da mulher em um momento seu,  a localização das palavras lembram uma vulva, neste poema Alice pulsa erotismo.



A tessitura de Alice vai além da imagética contida em cada palavra, que por si mesma, fala. A organização os versos em o vento, é quase um sopro na face do leitor.



O vento, um elemento que marca a leitura de Dois em Um. Aqui a construção da subjetividade, que se tratando de haikais parece óbvia, na escrita de Alice não é.  Pois, a ligação com a natureza permite um sentido maior  que atinge o leitor. Para mim o efeito foi uma torrente de lembranças: o vento que traz o perfume de quem chega sempre na mesma hora, o vento que traz cheiro de chuva, ou vento que pinta o sorriso no rosto do pequeno ao ver o cata vento girar, o mesmo vento que leva as bolhas de sabão pro alto e que faz a criança chorar quando perde, para o vento, pela primeira vez, um balão.




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