20 junho 2016

Caim, o primeiro vampiro, de Georgina Cavendish

Por Camila Andrade


Caim, o primeiro vampiro (capa), de Georgina Cavendish.
Caim, o primeiro vampiro é o livro da estréia literária de Georgina Cavendish, pseudônimo da jovem paraense Bárbara Ferreira. Formada em Engenharia pela Universidade Federal do Pará (UFPA) cursou Escrita Criativa na Universidade de Kingston, Inglaterra. A autora se declara apaixonada por línguas e romances históricos, o que despertou o interesse pela escrita.

É uma novela baseada na narrativa bíblica que envolve os primeiros filhos de Adão e Eva, Caim e Abel, com pouco mais de cem páginas e leitura fluida. Vale ressaltar o uso impecável da língua portuguesa e a postura de Georgina ao dizer, logo nas primeiras páginas da obra, sobre a lenda com o personagem bíblico Caim como o primeiro vampiro já ser conhecida porém sem versão definitiva em romances. 

O livro traz uma narrativa ficcional a partir de uma visão particular da autora, "com olhar nos conflitos internos do personagem e em seus questionamentos na relação com as outras pessoas e com Deus", explica.


Essa perspectiva psicológica está de fato presente na narrativa como quando os irmãos estão trabalhando, Caim com agricultura e Abel como pastor de ovelhas. Caim olha as mãos lisas do irmão e não as vê calejadas como as dele, assim como também não entende sua expressão de eterna paz.
"Enquanto ele brinca com as ovelhas, eu faço o trabalho duro."

A relação com a mãe é repleta de amor, os pais sempre perguntam aos dois como foram seus dias e comem juntos após a uma oração. O ensinamento do pai sobre trabalho duro está presente, mas Caim demonstra curiosidade angustiante sobre o futuro.

"Deus, quando minha vida vai mudar? Estamos condenados a viver assim pra sempre? O que queres de mim?"

Todos escutam a voz de Deus até que Caim não obtém mais respostas a seus pedidos, o contrário acontece com seu irmão. Sentimentos de ódio e raiva começam a tomar conta de Caim. Após matar Abel some do convívio da família para sempre. É quando Deus castiga o jovem, ninguém pode tocá-lo, todo o chão que plantar nada nascerá no lugar. Uma sede insaciável toma conta dele e não é compreendida até que bebe o sangue de animais, sua moral o impede de fazer isso com humanos. Mas até quando?

Mais tarde funda uma cidade chamada Henoc, mesmo nome de seu filho com Annabel. Por volta dos 17 anos de Henoc decide ir embora da cidade, a maldição finalmente foi compreendida: ele não poderia morrer e nem envelhecer, sua aparência imutável mesmo com o passar dos anos poderia causar problemas a sua família.


O importante é o caminho

Mesmo sendo uma narrativa bíblica conhecida, ao menos em suas características principais, os aspectos psicológicos percebidos por meio dos sentimentos e observações do fio condutor Caim na relação com outros personagens são muito interessantes. A primeira relação sexual de Caim e Annabel é retratada de uma forma muito natural, consciente e com toques de inocência. Ele se torna uma pessoa com rancor visível, causa medo àqueles que chegam a região. Tem também uma espécie de sentimento de posse em relação a esposa, quando se dá conta pergunta-se de onde vem aquilo. O conflito interno causado pela culpa e a lembrança daqueles a quem decepcionou faz parte da construção do personagem que sofre e não vê vantagens em não morrer.


Sem dúvida recomendo a leitura, é rápida e, para quem tem curiosidade, é uma forma de conhecer a narrativa bíblica e alguns aspectos que vão culminar na arca de Noé mais para frente no texto.

É muito importante conhecer novos escritores, principalmente num cenário descontínuo de apoio e circulação de obras de autores paraenses. Produzimos coisas boas aqui, basta alguma atenção e vamos descobrir. Assim conheci Georgina Cavendish.


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7 comentários:

  1. Que bacana! Fiquei curiosa para ler, e que legal saber que é literatura nacional. Quando tiver oportunidade vou buscar ler.

    https://blog-mundodalua.blogspot.com.br/

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  2. Ela só não diz que copiou isto de livros de RPG, Vampiro: A Máscara para ser mais especifico, que foi escrito na década de 1990!!!

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    1. É verdade. Essa ideia não é nova.

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    2. Como se a literatura fosse feita só de ideias novas, não é mesmo? E quase certo que esse livro de RPG também tenha se aproveitado de alguma outra fonte. No mais, acusar uma pessoa de ter copiado algo, sem ter prova alguma de que ela conhece o material pretensamente copiado é um pouco problemático, não?

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    3. Respondendo: Nem sabia que isso existia, só fui descobrir depois de meses do livro lançado e, além do mais, julgue como quiser, mas até pouco tempo nem sabia o que era RPG, que, para mim, sempre foi tratamento de coluna e esse eu fiz sim, obrigada. ;)

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  3. Achei o texto sensacional. Maneiro ver os autores locais se aventurando em outras vertentes.

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  4. Achei o texto sensacional. Maneiro ver os autores locais se aventurando em outras vertentes.

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Ronrone à vontade.