09 maio 2016

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, Gonçalo M. Tavares

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo Tavares, um dos autores contemporâneos de maior destaque na literatura Lusitana, tendo ganhado dentre outros o Prêmio Portugal Telecom de 2007, narra, ao longo de suas 240 páginas, a busca de Hanna, uma menina de catorze anos com trissomia 21, em uma Berlim do pós-segunda guerra com a ajuda de Marius, um sujeito que parece esconder (ou esconder-se) de algo.

Nessa jornada, publicada pela Cia das Letras, vamos encontrando personagens tão peculiares e que têm vivido este momento da história de uma maneira tão particular, que cada encontro vai compondo um retrato único e particular dessas criaturas, como se elas fossem pinçadas para mostrar que, como diria Simão Bacamarte, de O Alienista, de Machado de Assis, “de perto ninguém é normal”, ou comum.

Ao fazer isso vamos percebendo que, talvez, isso implique em mostrar que Hanna, embora com todas as suas particularidades é apenas uma dentre muitas outras pessoas, todas elas que, de algum modo, são inseridas no mundo de uma maneira muito particular. No caso de Hanna, isso implica o seu próprio século, assim como os homens 07 séculos, que guardam a história dos judeus, ou os donos do hotel que, ao invés de terem quartos numerados, os têm nomeados com os nomes dos campos de concentração.

Evidencia uma fragmentação da história, porque, não sendo uma história que se quer “oficial” e, portanto, monológica, se fragmenta pela subjetividade e história pessoal de cada personagem que nos é apresentado e que, se a princípio nos parecem estranhos e aleatórios, ao fim caminham para algo que já no início nos é mostrado no romance, um sentimento de união, de coletividade em que todos possam se sentir pertencentes.

Isso pode parecer estranho para o leitor, mas se justifica pelo que nos é mostrado em relação às pessoas que, por sua singularidade, acabam por ficarem à margem da sociedade, preocupação essa que acompanha Marius em relação à Hanna.

O romance, de leitura leve, nos apresenta algumas situações bem chocantes, que tem um efeito dobrado, mesmo sem a crueza que poderia ter sido empregada ao delas tratarem, e isso é um aspecto que chama bastante atenção, como a resposta dos donos do hotel, não-nomeado, e com quartos com nomes de campos de concentração “Por que podemos”, revela a apropriação de algo terrível para que se continue a existir, que a situação não seja esquecida e que as pessoas, que frequentam o hotel, sejam sempre lembradas.


Por fim, a decisão editorial de manter a ortografia portuguesa, ao invés de usar o novo ortográfico, me pareceu bastante acertada e faz um todo com o romance ao aliar a história com a sintaxe portuguesa.

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