02 maio 2016

Por que ler os contemporâneos? Autores que escrevem o século 21, organizado por Léa Masina


Fonte da imagem: Livros que eu li
A pergunta título do livro nos parece, de imediato, um pouco fora do lugar, quando pensamos (nós que trabalhamos de certo modo com Literatura, essa com H maiúsculo, que insistem em dizer que existe, embora não passe de mais uma arbitrariedade) nos livros e histórias que devem ser lidos e compartilhados entre as pessoas. O mais recorrente para nós, que insistimos em dizer que as pessoas não leem, não consomem livros e, principalmente, Oh, meu deus! Não leem os clássicos!, é querer que os livros da tradição literária, que se tornaram parte do cânon, que ganharam o status de essencial, pela permanência, talvez até arbitrária, de clássico.

A esse questionamento, várias respostas, inclusive a de que nos diz como nos tronamos o que hoje em dia somos e o que antes éramos; uma trajetória do pensamento e da inventividade humana, algo que permanece, pois se acredita, mesmo que de forma arbitrária, que seja um conhecimento que deva ser perpetuado. Tradição.

E qual seria a resposta para a pergunta que o livro suscita? 

A meu ver, seria uma que também se apoia na ideia da Tradição. Os novos escritores, os que lemos no dia-a-dia, possuem uma formação literária que os influenciam, seja na rejeição, apropriação, transfiguração e invenção de técnicas narrativas. É por meio deles e de sua escrita que vamos percebendo o legado de nossa tradição literária e de como, hoje, essa tradição permanece. Afinal, a tradição é algo de flexível, adaptável. Assim, eles nos mostram o que nos tornamos e quais os temas nos fazem a cabeça, são importantes para a nossa contemporaneidade. Eles explicam o nosso processo de vir-a-ser “no momento mesmo” do devir. Isso serve tanto para os autores mais ilustres, que consideramos Literários, como para os autores de livros comerciais e best-sellers (dicotomia que, como veremos a seguir, ao nos atentarmos um pouco mais sobre o livro em questão, se torna cada vez mais difícil de se estabelecer).

Por que ler os contemporâneos?, capa.
Fonte: Google imagens.
A ideia do livro Por que ler os contemporâneos?, parte justamente dessa ideia de tentar captar, no momento presente, os autores que se fazem importantes para a nossa formação humana, tanto quanto os clássicos. Assim, lista 101 autores, de diferentes nacionalidades e com diversos temas e preocupações e lugares de escrita e formação.

Entretanto, há algo de comum que os conecta, e não é o fato de a maioria ser de alguma área das Ciências Humanas ou ter trabalhado em jornais ou como professores universitários de literatura ou escrita criativa. O que os liga, trazendo certa coesão, à uma prática literária que não é mais definida por movimentos estéticos e escolas literárias encontra-se no tema de suas preocupações, que é o mesmo desde sempre da literatura, o Homem.

Contudo, engana-se quem venha a pensar que, por ser um tema “desde sempre”, há a queda em um lugar comum. O Homem desses novos escritores são fruto da (pós)modernidade, caótica e fragmentada, diria mesmo pulverizada e que sobreviveu à um século marcado por duas grandes guerras, conflitos político-religiosos e outros sem-fim de disputas. É o homem do tempo em que cada vez mais ode se comunicar, mas não sabe como interagir com as pessoas, que está isolado no mundo. É o homem que grita por sua liberdade e por sua necessidade de existir enquanto homem, mulher, negro, judeu, homossexual e de tantas outras minorias que sofrem com o processo de exclusão. Há o homem que se volta para o mundo destroçado e o homem que vendo este mundo, volta-se a si mesmo, ser também destroçado.

Talvez isso explique uma presença considerável de autores africanos, do leste europeu e, principalmente, de língua espanhola, sendo estes últimos os mais presentes, afinal, são representativos de sujeitos que por muito tempo viveram à margem, por conta dos inúmeros conflitos ocorridos em seus lugares de origem.

E, ainda que se pense esses autores como que apartados do mundo real, como aqueles inalcançáveis e difíceis, é um engano. Muitos foram adaptados para o cinema e mantêm uma relação muito forte com a cultura pop, como Chuck Palahniuk, Bret Easton Ellis e Haruki Murakami. Também há dentre os autores sucessos de vendas e legião de admiradores, como Chimamanda Ngozie Adichie e Valter Hugo Mãe.

Ao longo das 101 entradas, algo como pequenas resenhas, que falam de uma ou outra obra de grande relevância do autor e de uma pequena biografia do próprio, vamos passeando por diversos universos literários.

A felicidade e o prazer de encontrar autores que você tem na estante e que são de sua afeição, bem como aqueles que estando em sua estante e que estão apenas esperando uma pequena oportunidade de mostrar toda a força literária que possuem, são ma
ravilhosos.

O mesmo pode-se dizer dos autores que nos são desconhecidos e que vão nos despertando a curiosidade e o interesse, fazendo com que a nossa lista de livros desejados no Skoob cresça vertiginosamente.

Porém, nem tudo são flores.

Dentre os 101 autores selecionados pelos organizadores, há uma pequena participação feminina, somente 14, como nos diz a parte de curiosidades sobre o volume ao seu fim. O que nos leva a pensar não só se temos lido mulheres, mas também se temos dado abertura para que elas mostrem todo o seu potencial literário.

Também senti falta de alguns autores, como a Muriel Barbery e o Juan Pablo Villalobos, que têm envergadura literária o suficiente para constarem nessa lista. Saramago, Vargas Llosa e Gabo também não estão presentes e acredito mesmo que não deveriam, pois já alcançaram o status de clássicos, de pertencentes ao cânone e, assim, sua permanência nos anais da literatura.

J. K. Rowling não figura entre os selecionados (eu não acho isso um problema, na verdade), mas isso é coerente com a seleção dos demais. Não há escritores direcionados especificamente ao público juvenil, embora dentre os que figuram, haja aqueles que tenham escrito obras para esse público. Além do que, gêneros como fantasia e terror também estejam fora, portanto, Stephen King também está fora. Todavia, há um escritor de ficção científica, o Neal Stephenson, e outros autores de literatura policial.

Outra coisa que me chama atenção se refere aos resenhistas, praticamente todos (ou pelo menos a maioria) são provenientes de Universidades do Rio Grande do Sul (RS). Não que isso seja um problema, mas acredito que, de certa forma, isso influencie no final do livro, em sua composição enunciativa. Um livro que se propõe a pensar uma diversidade literária dentro da contemporaneidade poderia ter aberto espaço para resenhistas provenientes de outras regiões e lugares do país.


No mais, é valido lembrar que este livro foi publicado em 2014, pela Editora Dublinense, e que ainda estamos caminhando neste século. Ou seja, a lista também é um processo, nos mostra agora o que pode ser dito como importante literariamente sem ser algo de definitivo (nenhuma lista é!), até porque, alguns dos autores que nessa reunião consta, já morreram, portanto, não mais produzirão ao longo do que resta deste 21.

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Um comentário:

  1. Nossa, que texto delicioso. Concordo quando dizes que ao se propor a diversidade a autora, acredito eu, pode ter pecado ao trazer à tona as vozes de resenhistas de uma região específica. Também concordo sobre o fato de que a lista é um processo.
    Como leitora do Folhetim Felino quero saber: qual seria a melhor lista de autores contemporâneos pra ti?
    Grande abraço. Sempre excelente.

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