26 maio 2016

Dentro da noite veloz, Ferreira Gullar

Por Fábio Tadaiesky

Dentro da noite veloz é o primeiro livro do poeta Ferreira Gullar após sua fase inicial de composições experimentais
            Era preciso errar de uma nova maneira.*
Composta em um período de 13 anos, entre 1962 e 1975 – compreende a vida do poeta entre os 32 e os 45 anos de idade – que coincide com a ditadura, e nasce da esperança, quando, contraditoriamente naquele momento, parecia impossível vislumbrá-la.
Tornou-se então um desafio para mim elaborar uma linguagem poética que expressasse a complexidade do real sem mergulhar[...]na velha visão metafísica*
Nasce a obra não do conceito “esperança”, mas do processo longo em que é preciso para que esse complexo sentimento que a palavra representa possa ser concebido e se torne necessário à manutenção da vida, junto a um veículo – aqui, a poesia – complexo como um sistema estelar; como bomba, na mão de um adolescente vietcongue ou na barriga de uma criança nordestina; ou antes de tudo, como o fruto na semente.
Noutras palavras: uma poesia com a universalidade latente no nosso dia-a-dia, na nossa   vida de marginais da história.*
O primeiro poema diz como é complexo o giro das engrenagens da “máquina” da esperança, descoberta como semente, que necessita de uma morte simbólica:  “Meu povo, Meu poema” fala de como a esperança nasce antes de se ter noção de sua existência, “como o sol na garganta do futuro”, símbolo da ressurreição diária da vida.

Gullar, reconhecido crítico de arte, consegue unir nos poemas de Dentro da Noite veloz o pensamento ultra consciente do Hamlet, “não metafísico”, e a necessidade primitiva do artista ancestral de representação de seu tempo.
Numa poesia [...] – em função da própria matéria com que trabalha – brasileira, latino-americana. Uma poesia que ajudasse a descobrir a nós mesmos.*
No poema que dá título ao livro ele aponta os equívocos de Che Guevara na Bolívia, e como a noite pode se fechar rapidamente sobre nós, ou sobre nossa reticente vida de empregado assalariado, que vive uma vida sem esperança, e que por isso não verá a sua vida mudar amanhã e nem depois de amanhã: começa um poema “sem qualquer esperança” que só a poesia estanca a sangria do desamor. Mas “a vida muda como a flor em fruto/ velozmente”.

Esperança retomada no voo da voz de Nara Leão e na sensação de se estar vivo sentida no pulso, nas ondas do mar, no burburinho das ruas e principalmente no coração, em “ a vida bate” – a partir desse poema as fontes da esperança se expandem irrestritamente. Podendo vir do passado (“praia do Caju”, “memória”, “anticonsumo”, “ei pessoal”, “uma fotografia aérea”, “ a casa”). Vem também do presente caótico das guerras, mais especificamente no significado da resistência sem explicação de um garoto vietcongue (“por você por mim”) num movimento brutal e desmedido de esperança contra a morte, mesmo que ninguém o visse além da consciência do poeta. 

Mesmo movimento feito por Che Guevara, e criticado em “Poema” escrito para seu amigo suicida Léo Victor. O mesmo movimento brutal em “notícia da morte de Alberto da Silva”, após uma vida sem brilho de um trabalhador exemplar.

Tão brutal como a morte encontrada por outros é sua sombra em cada passo de perseguido político, clandestino e exilado que foge dela, e por não aceita-la, a transforma na mais plena convicção na vida, como em “vendo a noite”, “o prisioneiro”, “pôster”, “madrugada”, “exílio”, “a poesia”, “dois poemas chilenos”, “passeio em lima”, “ao nível do fogo”, e nos mais duros poemas do livro na minha opinião: “cantiga para não morrer” e “no corpo”, pois não há uma pessoa no mundo que sinta esperança ao carregar no peito um vazio.

Escuta-se o eco de Dentro da Noite Veloz nitidamente após 40 anos de seu lançamento: o latifúndio ainda mata; as grandes corporações oprimem; os pobres são os mesmos, nas favelas, no norte e nordeste; a política é mais suja do que nunca. Mas ainda resistimos...
            e podemos formar uma muralha
            com nossos corpos de sonho e margaridas
         
A POESIA É O PRESENTE.




 Ouça A Vida Bate por Ferreira Gullar.
*Uma Luz do Chão (GULLAR, 1975)


Fábio Tadaiesky
Professor de Língua Inglesa, tradutor e acadêmico de Língua Portuguesa na Universidade Federal do Pará.

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