28 abril 2016

A caixa preta, Amós Oz

No universo de leitores, todos, temos nossas manias. Uma das minhas, que me faz escolher entre tantos títulos pretendidos à próxima leitura, ou até mesmo, comprando um livro numa livraria, é ler o primeiro parágrafo da narrativa (e não a quarta capa), pois acredito que a forma que uma narrativa começa diz muito sobre o que está por vir (quem não lembra as primeiras linhas de Metamorfose?). E foi pelas primeiras e arrebatadoras palavras de Caixa Preta que eu quis ler esse livro!
“Caro Alec, 
Se você não destruiu esta carta no momento em que identificou a letra no envelope, é sinal que a curiosidade é até mais forte do que o ódio. Ou que seu ódio necessita de combustível novo.” p.7

Como ficar indiferente ao início de uma carta assim? Isso sem falar em todo diálogo que se segue após essa ácida retomada da relação, pois A Caixa Preta se trata de um romance epistolar, minha segunda leitura de Amós Oz. Meu primeiro contato com o autor foi em seu livro de contos Entre Amigos, e assim como neste, o romance veio confirmar a impressão que tive de Amós: ele mergulha nas relações humanas (!). Com uma linguagem que dá força à narrativa, cria aproximações a elementos que geralmente permanecem distantes e ausentes: em sua escrita a palavra pretende ser beijo, ser tapa, ser afeto. Mas, deixando um pouco de lado minha excitação com esse aspecto, vamos voltar um pouco. Eis, antes de tudo, o enredo:
“A caixa preta a que se refere o título não pertence a um avião, e sim a uma relação amorosa desfeita. Anos depois do divórcio escandaloso, a esposa rejeitada Ilana emerge das cinzas do tempo, da distância e do rancor para passar a limpo seu casamento com Alex Guideon, professor e escritor mundialmente famoso. Ao mesmo tempo, por trás de paixões pessoais tão intensas que beiram a loucura, desenha-se com precisão o complexo panorama social, religioso e político da vida em Israel nos últimos anos. Fortemente erótico, mas também engraçado e poético, A caixa preta só revela aos poucos sua sabedoria mais funda e amarga: somente a proximidade da morte e a consciência da finitude do corpo podem apaziguar as paixões.”
 A partir desse enredo Amós nos conduz por uma discussão erudita entre o triangulo “amorodioso” de Alex, Ilana e Michel. As cartas mais poéticas sem dúvida são as trocadas entre Alex e Ilana, em que as ofensas são dirigidas através de metáforas numa miscelânea de sentimentos que ora beiram ao rancor, ora ao amor reprimido.
Por que estou contando tudo isso a você? Na verdade, deveríamos voltar ao silêncio estipulado entre nós. A partir de agora, até o fim de nossas vidas.” p.46“O que restou de toda nossa alegria, sua e minha, Ilana? Talvez apenas alegria da desgraça dos outros. Os tições do fim da fogueira. E aqui estamos, soprando através da outra metade do planeta, esperança de atiçar por um momento uma língua de fogo de malícia.” p.102
A poética de Amós nos permite sentir as aproximações que ele estabelece em tantos elementos metafóricos. Intima o leitor a chegar mais perto para enxergar melhor e por dentro do texto. Um bom exemplo é quando põe Ilana e Alex, que estão fisicamente distantes, fazendo possíveis descrições do espaço um do outro com detalhes intimistas: esta imagética transforma o livro em um pedaço de papel que guarda lugares dentro dele.
“Agora pode parar de ler e jogar esta carta direto no fogo. (Por alguma razão sempre imagino você num aposento comprido, cheio de livros, sentado sozinho junto a uma escrivaninha preta, e diante de você, através da janela, estendem-se planícies vazias cobertas de neve. Planícies sem colinas nem árvores, neve brilhante e árida. Um fogo arde na lareira à sua esquerda, e um copo vazio e uma garrafa vazia estão sobre a escrivaninha vazia em frente a você. A imagem é toda em preto-e-branco. Você também:asteca, arrogante, alto e todo em preto-e-branco).p.7

Quando uma escrita é poética ela nos ajuda a reconhecer a que ponto o passado da narrativa colore o nosso presente, as palavras parecem ter vida própria pois riem, debocham, choram, provocam e tanto outros verbos que criam e/ou recriam em nós experiências das vidas encarnadas em nossas mãos.

Gostou da postagem? Já leu o livro? Não conhecia o Amós? Deixe um comentário! Ah, aproveita e curta a nossa página no FB e se inscreva no nosso canal no Youtube!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ronrone à vontade.