02 março 2016

Lolita, My Littles princess, O Segredo e Tampa: narrativas de abuso de menores, parte 02


Sobre My little princess, percebo o mesmo jogo dúbio com a imagem que se constrói da criança abusada, embora isso seja bem mais “explícito”, que em Lolita, já que o filme nos dá uma perspectiva mais “onisciente” da narrativa.

A menina, ao mesmo tempo que se mostra desconfortável ao fazer os ensaios eróticos para a mãe, parece desejosa dele participar e assim permanecer mais próximo dela e ter a estima da genitora, da qual vivia afastada e convivendo mais com a avó.

Já no conto “O Segredo” presente em Boca do Inferno, de Otto Lara, Sílvia é uma menina que mora com a mãe, que fora abandonada pelo marido e pai da menina, e com a avó em uma casa humilde, sem luxos. À medida que vai crescendo, ela passa a sofrer investidas de homens mais velhos e guardando isso em segredo. A menina, embora vá apresentando traços de um corpo maduro, é de uma ingenuidade acerca as intenções dos homens que a cercam, evidenciando o descompasso entre maturidade biológica, mental e afetiva.

Tampa nos apresenta um caso diferente, já não é o homem a abusar de um menor de idade, mas uma mulher, professora de literatura de um colégio do ensino fundamental, que vai nos relatando os mecanismos que ela usa para escolher e seduzir o aluno que será, durante aquele ano, o seu parceiro sexual.

Assim como em Lolita, a personagem de Tampa também tem um gosto muito específico de menino, não só ao que remete as qualidades físicas, mas também psicológica, tão importante quanto a outra, pois, se a primeira é o que lhe desperta o desejo, a segunda é o que lhe dá as garantias de controle da situação e manipulação do menor.

E o que os menores de todas essas narrativas têm em comum?

Todos eles estão inseridos em famílias desestruturadas, e com isso não se quer dizer que sejam famílias que não tem um dos pais ou que se encontre em situação financeira delicada; embora isso esteja presente nos dois exemplos que se seguem a Lolita, não é a realidade total de Tampa, na qual o menino é de uma família financeiramente estável. A desestruturação vem de algo mais profundo, da falta de diálogo, de cumplicidade com os seus responsáveis.

Dolores detesta a mãe. A menina de My little princess se sente distante da mãe, com quem ela tenta estabelecer algum tipo de relação. Sílvia, embora conte para a mãe sobre o que o primo daquela fez, é desacreditada, não só pela própria mãe, mas pelos que estão ao seu redor e nesse caso, outro fator se mostram importantes, a figura de um homem na casa, que passa a ideia de respeitabilidade, a carência afetiva em relação ao pai e a colaboração financeira que o primo faz e que, pelo que se entende, praticamente sustenta toda a casa. Em Tampa é a figura da professora, alguém com autoridade, que dá liberdade para o abuso sexual, a confiança no adulto e a falta de diálogo do menino com o pai.

A autoridade aí se apresenta de maneiras distintas, mas acabam se servindo com o mesmo propósito, o de silenciar os abusados. Talvez a obra em que mais isso esteja presente das comentadas seja o conto de Otto Lara, em que vemos Sílvia ser desacreditada por ser criança, por sua palavra não ser levada em conta em um processo e pelo fato do primo, e aqui é o xeque-mate de toda a perversidade da situação, prover financeiramente a família da menina.

Em Lolita isso se dá no fato de Humbert Humbert sempre se apresentar como pai de Dolores, o que lhe possibilita frequentar o mesmo quarto que a menina pelos motéis de beira de estrada dos EUA, a autoridade da maternidade é o que dá a mãe a possibilidade de usar a própria filha nos ensaios eróticos que ela monta.

No caso do romance de Alissa Nutting, temos ainda  outro problema, um deles mencionado no texto que escrevi sobre ele, que é o do incentivo social do “menino que pegar” a professora gostosa, de como isso o torna mais homem e de como os homens adultos adorariam ter tido uma professora gostosa na época em que estudantes eram. Há o fetiche com a figura de autoridade aí.

O outro problema é o de que, quando falamos em abuso sexual de menores, nos focamos nas situações em que homens são os abusadores e em sua maioria as vítimas são meninas. Esquecemos ou acreditamos não ser possível que mulheres também possam ter esses desejos, que também possam ser violadoras da infância e adolescência, algumas com os próprios filhos. Aqui, há a negação do desejo feminino.

Essas obras revelam a perversidade da autoridade dos adultos frente a palavra das crianças, sempre vistas como sujeitos que não têm o que dizer, que não conhecem as coisas do mundo. A leitura ou assistir tais não fazem apologia, como muitos acreditam, mas nos revelam os mecanismos desses atos de silenciamento, como eles acontecem e como eles são camuflados e, muitas vezes, tem até a nossa conivência.

E, esta, também se apresenta de formas diferentes. Em As ligações perigosas, minissérie inspirada no romance francês homônimo do final do século XVIII, a conivência se dá não só pela figura da personagem Isabel, que ajuda no abuso que a jovem Cecília sofre, mas da própria mãe, que não busca estabelecer um diálogo com a filha e assim, possibilitando um emponderamento, um acesso a autoridade da palavra, na transformação da criança ou adolescente em sujeito que sente e tem algo a dizer sobre o que sente e vive. Ou seja, alguém que tem importância.

A discussão que se teve sobre a minissérie seguiu a mesma linha de argumentação que estamos vendo com o romance de Nabokov, e é equivocado, como digo no texto “Ligações perigosas: os valores, os bons costumes e a literatura”.

Acredito e reitero, portanto, que o discurso do abusador, que se apresenta em muitos desses textos aqui tratados, é importante para compreendermos com ele se engendra e assim, cada vez mais, interromper e acabar com os mecanismos por ele utilizado a fim de culpabilizar a vítima; quanto a esta, é importante o seu ato de falar porque, além de desvelar a situação de abuso, ainda é outro meio para se perceber o funcionamento das práticas autoritárias que silenciam os abusados, que os culpabilizam e, portanto, nos fazem crer que eles estão se vitimizando na tentativa de imputar ao sujeito da autoridade um mal comportamento.

A não leitura e o não enfrentamento face-a-face desses discursos não permitem o desenvolvimento de um debate, da compreensão de como as coisas tem funcionado. Não ler de forma crítica e profunda esses textos, não fará com que o problema deixe de existir. Aliás, querer a não leitura desses textos só faz o interesse por eles crescerem e, uma leitura feita na clandestinidade não possibilita o debate, mas tão somente a romantização que todos dizem querer evitar.

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