29 fevereiro 2016

Lolita, My Little Princess, O Segredo e Tampa: narrativas de abuso de menores, parte 01

AVISO: O texto que se segue é a primeira parte de duas, devido o fato dele ser muito extenso.

Desde que assisti a primeira vez o filme My little princess (2011), de Eva Ionesco, baseado na relação da diretora com a mãe, durante a fase púbere, em que Eva se tornou uma modelo de fotos sensuais em ensaios da própria mãe, que percebi um paralelo com Lolita, romance de Vladimir Nabokov, que trata do relacionamento sexual entre um homem bem mais velho e uma menina de doze anos, que se tornou sua “tutelada” após a morte da mãe. O romance de Nabokov também foi adaptado para os cinemas, sendo a do ano de 1997, de Adrian Lyne, considerado tão forte quanto o romance.

No entanto, a escrita que eu pensava era um pequeno ensaio acadêmico que aproximasse as duas obras, um estudo comparado onde se pudesse perceber a relação de interdependência construída nessas relações abusivas. O projeto acabou nunca saindo do campo das ideias e de breves notas em um caderno que acredito ainda estar por entre as minhas coisas.

Porém, o assunto de relações sexuais abusivas voltou ao palco das redes sociais, principalmente citando a obra de Nabokov, Lolita, o qual é acusado, dentre outras coisas, de romancear o abuso sexual de crianças; o que, embora não seja um argumento totalmente correto, não é de todo verdadeiro.

Por isso, ao ver esses tipos de comentários que pedem até que a obra não seja lida, resolvi escrever este texto expondo o que eu penso sobre toda essa questão e propondo uma perspectiva de leitura e compreensão da obra, à luz de outras, como o filme de Ionesco, para que possamos pensa-los como elementos constitutivos de uma postura mais crítica e atuante frente o problema do abuso sexual de menores.

Assim, além do já referido My little princess, falaremos do conto “O Segredo”, de Otto Lara Resende, presente na coletânea Boca do Inferno; do romance Tampa, de Alissa Nutting, bem como retomar algo que já foi discutido no texto, “Ligações perigosas: os valores, os bons costumes e a literatura”, publicado no site Os Entendidos.

Mas antes, vamos nos voltar para Lolita...

O romance é narrado em primeira pessoa, Humbert Humbert, que só poderá falar do que sabe, seja por meio do que viveu ou do que ouviu dos outros. Tudo o que leremos é a perspectiva dele das coisas, um fragmento de uma realidade muito maior. Ele é um narrador-personagem que nos conta uma história de muito tempo atrás, onde memória, afetividades e desejos se misturam. Há também o fato de que ele é um narrador interessado, na medida em que fala de si e tenta criar, mesmo admitindo os desejos considerados tabus e patológicos em nossa sociedade, empatia. É a narração de um doente confesso.

Perceber esses elementos na construção do romance é importante para a compreensão do romance e não cairmos nas armadilhas de uma leitura superficial que nos faz crer que há uma romantização do relacionamento entre Humbert Humbert e Dolores Haze, a Lolita dele.

No que se refere ao enredo, Humbert Humbert se mudou recentemente para os EUA, vindo da Europa, a fim de novos ares. Enquanto procura um local para alugar, ele começa a divagar sobre o seu desejo por meninas em fase de transição da infância para a adolescência, na qual, de acordo com ele, adquirem uma compleição física muito específica; e em como ele tentou diversas maneiras estabelecer algum tipo de contato sexual, nos tempos em que ainda vivia na Europa.

Nessa procura por um lugar em que possa morar, ele acaba se deparando com Charlotte Haze e Dolores, a menina por quem ele passa instantaneamente a nutrir um desejo. É por causa de Dolores que ele, primeiro aluga um quarto na casa da Sra. Haze e, depois contrai com ela matrimônio.

E é nesse momento da narrativa em que há a chave da compreensão do que de fato é o romance. Tudo o que nos é mostrado pelos olhos como catalizadores e propulsores do desejo que ele vai nutrindo e tentando de várias formas aplacar e saciar, mas sem conseguir de fato estabelecer o relacionamento sexual com Dolores. Assim, toda e qualquer ação da menina se torna pra ele uma provocação, algo que tem algum sentido erótico por trás.

Creio que seja isso que as pessoas criticam como a culpabilização da vítima, o que para mim é o movimento de deslocamento da ideia que isso realmente quer nos mostrar, que é a forma como o abusador enxerga o modo, de como os pensamentos dele são deturpados, em como ele acredita que “um cachimbo não é apenas um cachimbo”.

Ele, em sua defesa, já para o final do romance ainda evoca fatos como ela não ser mais virgem, quando eles começaram o tenso relacionamento, bem como ela ter fugido com um outro homem mais velho, que estava os seguindo pelas estradas do interior dos EUA. Tudo mecanismos para desviar da culpa que ele sabe ter e, quem acredita que isso é o que se quer com o texto está fazendo uma leitura muito superficial, comprando a história de Humbert Humbert e, deste modo, sendo enganado pelo narrador e feito de tolo pelo autor.

Mas há ainda dois elementos sobre Lolita que precisam ser ao menos citados, o material gráfico das capas ou dos pôsteres dos filmes, mencionados pelo canal Fetiche Literário em um vídeo sobre o livro como sendo problemáticos por conta da hipersexualização da personagem Lolita, muitas vezes até usando meninas realmente jovens nos ensaios das imagens que compuseram o material.

O problema da hipersexualização existe dentro da obra e mostrar as meninas dessa forma é coerente com o conteúdo do romance, também vale reiterar o que aqui já dissemos, toda a narrativa é contada pela perspectiva de Humbert Humbert, desta maneira, quando nos deparamos com materiais gráficos desse tipo, estamos sendo colocados na pele do narrador, temos os olhos dele e passamos a ver a vida do mesmo modo que ele a enxerga.

O jeito como isso é construído é questionável, mas ainda assim é coerente com o conteúdo da obra, com o que ela nos propõe enquanto perspectiva. Há alternativas? Há, e prova disso é a capa da edição do romance editado pela Companhia de Bolso, selo do grupo Companhia das Letras.

O outro elemento é o que se diz da obra nos textos que acompanham o livro, sejam eles de orelha, quarta capa ou prefácios e posfácios, que afirmam essa ser uma “história de amor”, como foi mostrado no vídeo sobre Lolita do canal Fetiche Literário. Ora, não há nenhuma história de amor, em Lolita. Por mais que no fim do romance, ao reencontrar Dolores casada e grávida, Humbert Humbert pareça sentir algo que suscite isso, o que temos é mesmo é uma melancolia de perceber que o objeto de seu desejo durante tanto tempo se transformou em algo que não lhe diz mais nada. O sentimento de que o tempo passou. Lolita age com a indiferença de sempre, quase maquinalmente, evidenciando que por parte dela também não há qualquer sentimento que possa supor algo como “boas lembranças” de um relacionamento amoroso.


Todavia, nem todas as edições apresentam esse problema no que se refere a dizer o que a obra e os seus personagens são, e novamente me refiro a edição da companhia de bolso, que trata o relacionamento como tenso e sexual, pervertido e Humbert Humbert um cínico e Lolita como perversamente ingênua (vale lembrar que isso é assim porque a personagem nos é apresentada pelo ponto de vista de Humbert Humbert).

Continua...

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