26 fevereiro 2016

Entre amigos, Amós Oz

Existem regras para solitude? Dessa necessidade de tempo e espaço sozinhos. Pergunta que por vezes insiste em meus devaneios... Pensando em livros, todo leitor é um solitário. Uma boa relação com eles, muitas vezes, carece de solitude. Ela e a Literatura andam lado a lado. Ela é o estado de estar só por opção, por necessidade, que nem sempre é compreendido. No terreno instável da solitude, de tudo que ela afasta, tive um doce encontro literário, um achado (!).

Passei os últimos dias cativada por um livro de contos e a matéria-prima de suas histórias: a solidão. Ando cada vez mais apaixonada por esse universo das narrativas curtas, nelas, a história precisa nos envolver em poucas páginas, a construção do personagem conta com o pouco tempo de vida que cabe nessa efêmera ficção. E o autor, em poucos parágrafos, precisa achar a medida exata entre revelar e omitir informações para uma narrativa aprazível. Amós Oz tem essa medida. Entre amigos é meu primeiro contato com o autor israelense. Um livro de contos que abriga oito narrativas ambientadas em um Kibutz.
Ele apresenta o universo do Kibutz Ikhat a partir de um narrador onisciente e onipresente que, apesar de não se identificar, deixa claro ser um dos moradores do lugar. As suas impressões de cada personagem mudam de uma narrativa para outra, pois os oito contos estão relacionados. Um personagem que é apenas citado em um conto, em outro, aparece como figura central, e aqui , percebe-se a delicadeza de Amós ao direcionar o olhar do leitor para um mesmo papel de formas diferentes; é como  ver alguém de longe, formar uma imagem, e ao chegar mais perto ir sendo surpreendido pelos detalhes.
A partir da primeira narrativa já temos essa impressão: O rei da Noruega apresenta Tzvi Provizor (tive um estranhamento com  os nomes), um jardineiro que gosta de dar más notícias: “Acordava cedo para ler o jornal logo de manhãzinha, antes de todos nós, e ouvia todos os noticiários do rádio para poder se apresentar na entrada do refeitório e deixar você chocado”p.7.
Num primeiro momento o personagem soa desagradável, afinal quem gosta de uma pessoa assim? Mas, o autor aos pouco revela um homem solitário que “em toda a sua vida nunca tocara nos outros e se arrepiava se tocavam nele. p 15.”, o anjo da morte, como era chamado, acaba nos surpreendendo por ter uma perspectiva diferente das mazelas do mundo, essa sensibilidade incomum o isola dos demais. A solidão de Tzvi é de quem tem o sentimento do mundo e  carrega toda essa dor nas costas.
Mas esse é só o primeiro conto. Nos seguintes, o autor explora a densidade da solidão. No conto que dá nome ao livro, Entre amigos, conhecemos a delicada relação de Nahum Ashrov e de sua filha Edna, de 17 anos. Afastados eles “concordavam tacitamente em não tocar em sentimentos e não tocar um no outro.”p.30 mantendo uma distancia segura dos conflitos e do coração um do outro.
Tocando em relações familiares, há o conto Pai que trás  Moshe Iashar, um jovem que foi enviado sozinho ao Kibutz por falta de condições da família em sustentá-lo. Ele tem uma “estranheza tranquila e contida”. Reconheci em Moshe toda solidão dos jovens deslocados, tímidos, que nunca sentem-se parte de um lugar, que não tem um pai pra dividir suas angústias. Quantos "Moshes" estão sozinhos por aí?
E se você acha que Amós para por aí, não. Ele ainda vai expor a solidão escondida no humor, em Um menininho nos aproxima do rapaz Roni Shindlin, que já havíamos conhecido no primeiro conto, a figura engraçada do kibutz, faz a todos rir com suas imitações, apelidos e fofocas. Mas por trás das piadas, há um homem que vive um casamento infeliz e sofre com as dificuldades que o seu menininho Iuval, de cinco anos, tem em relacionar com as outras crianças. Sozinho, Roni Shindlin precisa lidar com todos os receios que um pai sente por ter um filho diferente.

Ao fim do livro percebi que todos os personagens, em algum aspecto, sentem-se solitários, talvez seja esse o alvo de Amós, “porque a sociedade kibutziana não tem nenhuma resposta para a solidão. Mais que isso: o próprio conceito de Kibutz nega o conceito de solidão”p. 80. A solidão presente em Entre Amigos pode ser de qualquer um de nós. Talvez, a resposta para solidão seja que “a maioria das pessoas, precisa de mais calor e afeto do que os outros são capazes de dar”p.122. Talvez, existam regras para solitude, não para solidão.

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