20 janeiro 2016

Não há ligação que não seja perigosa

A minissérie em 10 capítulos baseada no romance de Chordelos de Laclos, Ligações Perigosas, terminou nessa sexta-feira e o final das personagens foi selado. O texto de hoje não será pautado pela minissérie, mas pelo enredo, linha narrativa de composição que permeia quase todas as adaptações do romance e o próprio.

Embora a premissa do romance seja a de planos de sedução e conquista, vingança e poder entre dois libertinos, no fim percebemos que tudo acontece não porque eles são seres iluminados e inteligentes, mas porque todas as variáveis e atores ao redor contribuem, tornando-se assim, também, ligações perigosas. No romance, não há quem não contribua para a corrupção e, portanto, não há quem não seja punido.

As mais evidentes punições são as de Valmont, que morre pelas mãos do Chevalier de Danceny (Felipe, professor de música, na minissérie), após este descobrir que aquele desvirtuou a sua amada Cecília. Mas ele também sofre outras punições, como descobrir a existência e a possibilidade do amor e de não poder vive-lo, por exemplo.

Já a Marquesa de Merteuil, a Isabel D’Ávila de Alencar, perde o seu grande amor, Valmont, o seu dinheiro, a sua beleza e o respeito que desfrutava em sociedade. Ela é a que mais perde, a quem mais é punida, mas também a quem mais vence no jogo estabelecido desde o início do romance. O Conde de Gercout (a quem Cecília foi prometida) não se casa com Cecília, a moça virgem, a sua sobrinha, além de não ser mais pura, ainda se torna, pelo que é dado a entender no final do romance, uma libertina, ela conquista todos ao seu redor. Por tantas conquistas, tantas perdas e punições.

A Sra. de Rosemonde, ou tia Consuelo, perde o seu amado sobrinho e em plano maior, perde seu único herdeiro, quem poderia perpetuar o nome da família, a tradição e a nobreza. Ela poderia ser comparada com a própria instituição nobiliática que idosa, não tem nenhuma perspectiva de futuro, já que estéril, não tem como prover futuras gerações de nobres. A punição se dá por causa da condescendência. Ela percebe o que está acontecendo ao seu redor, entre Valmont e Tourvel, mas não interfere. O seu amor pelo sobrinho não permite isso, não permite que os valores que ela prega sejam as correntes a agrilhoar quem ela tanto ama.

O Chevalier de Danceny, ou Felipe, perde o seu primeiro amor, sua inocência e adquire um ar cético em relação ao amor, além de precisar ir embora de Paris (no romance). Este não foi de todo inocente, desde o início ele também tentou seduzir Cecília, mesmo que de uma maneira mais sentimental e idealisticamente romântica. Também não é o herói romântico esperado, já que o duelo com Valmont não é movido pelo que aconteceu com Cecília, não se refere à ela, mas a ele. Ele se sente traído em seu amor e em sua amizade. Ele vinga a própria honra e em nenhum momento tem em mente que a sua adorável foi também uma vítima. Ele consegue no máximo ser condescendente com a mãe de Cecília, no fim, nada mais.

Sobre a mãe de Cecília, a Sra. de Volanges no romance, sua punição é ver todos os seus planos de casamento da filha com alguém rico e se tornar ainda mais importante na sociedade ir por água abaixo. Ela além disso também tem o mesmo tipo de perda que Sra. de Rosemonde ou mesmo a Presidenta de Tourvel, Mariana, têm: a perda da possibilidade de futuro de nome, de continuidade da árvore genealógica. Ela, ainda, é punida por não perceber os problemas de uma educação distanciada e religiosa pode trazer na formação dos filhos, consideração a qual ela chega tarde demais no romance. Perde a amiga, a quem de certo modo levou induziu ao plano de conversão e que no fim, impossibilitou a entrega da carta que poderia ter salvado ambos, Valmont e Tourvel. Não bastasse isso, ainda fica sendo uma das familiares responsáveis em quitar as dívidas da fugitiva Marquesa de Merteuil. Ela, ao lado da Marquesa, são de longe as mais punidas.

A Presidenta de Tourvel. Já adiantamos que com ela se perde a possibilidade da continuidade de linhagem do nome e do título dos Tourvel, mas isso é muito pequeno. Ela perde a vida. E o seu erro não foi o adultério, a sua punição não se dá por conta deste fato, embora muitos poderiam e mesmo devem assim pensar. Se Valmont pretendia corrompe-la, tornar-se o deus substituto, a nova religião da Presidenta, ela, por outro lado, também tentou um projeto de corrupção. Esclarecemos que corromper é entendido como modificar algo em sua essência ou particularidades específicas, transformar alguma coisa em outra, para a qual ela não era destinada, a princípio. Ela tentou transformar o Valmont em uma boa pessoa, em um ser devoto e de bem. Ela de certa maneira também sai vitoriosa, mas paga com a própria vida, pela inocente arrogância que permeia muitos religiosos no que se refere à conversão.

Por fim, Cecília. Ela é culpada pela sua inocência, que nunca foi algo puro, mas proveniente de sua ignorância e que vai se transformando em fruto de dissimulação. Tudo o que lhe dizem ela vai fazendo, ela não tem vontade própria. Se induzem que ela está apaixonada, ela acredita. Se dizem que sua mãe é má? Ela acredita. Se lhe dizem que ela pode se relacionar com qualquer homem que quiser? Ela acredita. Ela não contesta que a maioria das coisas que lhe dizem tem muito a ver com traição e mentira. Não há problemas em contestar a autoridade dos pais, ainda mais quando eles querem lhe impor um casamento por interesses. Não há nada de errado em se relacionar com vários homens. Claro, isso na nossa perspectiva atual. O grande problema é que isso é por ela feito por caminhos vis e de perfídia, por meio de mentiras, traições e dissimulações. Tanto que a punição dela, por ser uma mulher de fraca personalidade é ser uma das maiores vitórias da Marquesa, a de ter se tornado a libertina que aquela queria que ela fosse.

E, antes que você considere que essa análise é muito dura com personagens que eram vítimas, mocinhos e heróis, devemos considerar que virtudes e vícios podem ser bons ou ruins na medida das consequências que acarretam para os que estão em seu redor, como nos é dito em O Príncipe, de Maquiável.

Ser uma ligação perigosa, não precisa ser necessariamente ser mal conscientemente, pode advir de boas ações, de condescendência e omissão.

É por isso que a crítica de Laclos é tão forte e pertinente ainda hoje. Na época, podemos considerar que para além da crítica da sociedade, da nobreza, foi também uma crítica ao modelo de educação e influência de valores e costumes religiosos, já que levavam a um puritanismo que não tinha como não ser ilusório - um jogo de luzes que mais construía sombras, do que iluminava os espíritos.

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