13 janeiro 2016

Ligações Perigosas expõe as Verdades Secretas do que nos revolta

A minissérie Ligações Perigosas, que está sendo exibida pela Rede Globo de Televisão, causou polêmica na internet após a cena em que Cecília (Alice Wegmann) é violentada por Augusto (Selton Mello). Não falarei sobre a questão levantada sobre a romantização do estupro, ou do fato de a emissora permitir que uma cena dessas seja produzida, enquanto uma cena de beijo homoafetivo seja vetado. Aliás, sobre a questão do estupro em si e sua romantização, eu já escrevi para a coluna que eu assino no site Os Entendidos, sob o título Ligações Perigosas: Os valores, os bons costumes e a Literatura.

No texto de hoje eu gostaria de pensar a cena de estupro relembrando uma outra cena, de mesmo teor, mas que não rendeu essa polêmica toda, que foi a cena de estupro de Larissa (Grazi Massafera), na minissérie Verdades Secretas, também da Rede Globo de Televisão.

Mas, antes de entrar diretamente na discussão, vamos traçar um rápido perfil de cada personagem, a fim de que possamos compreender mais a frente a linha de raciocínio que seguirei.

Cecília é uma adolescente, criada em um convento, virgem e de família abastada e tradicional. Já Larissa era uma mulher por volta dos 30 anos, modelo de passarela, que sempre precisou trabalhar para se sustentar e que também se prostituia. Também se tornou viciada em drogas e foi morar na rua, onde foi estuprada por vários homens de uma só vez.

Após a cena de Larissa ter ido ao ar, as manchetes de sites de notícias e de entretenimento falavam sobre a entrega e sobre a excelente atuação de Grazi Massafera na cena do estupro coletivo. Enalteceram o trabalho dela enquanto atriz e, a discussão sobre os perigos pelos quais ela passou, por estar em situação de vulnerabilidade não aconteceu, como se fosse uma coisa normal e até mesmo esperada.

Imagem dos principais resultados sobre a cena de estupro coletivo em Verdades Secretas.


O mesmo não aconteceu em relação a cena de Cecília. Ninguém elogiou o modo como a jovem Alice Wegmann conduziu uma cena forte, que poderia desestabilizar qualquer atriz em cena, o assunto nas redes sociais e nos sites de notícias e entretenimento só falavam do absurdo de uma cena dessas ter sido veiculada.

Imagem dos principais resultados sobre a cena de estupro em Ligações Perigosas.


A conclusão que eu chego para que a reação do público seja diferente para cada cena de violência sexual é a de que, se uma mulher se prostitui, mora na rua e é viciada em drogas e, portanto, coloca-se em situação de vulnerabilidade (e aqui se exclui todas as variáveis que leva isso a acontecer), é normal que ela passe por esse tipo de situação. É como dizer que a mulher que andou tarde da noite na rua, que sua roupa curta e sensual ou que ficou bêbada, pediu para ser abusada. Quem mandou ela se colocar em situação de risco, não é?

Não se questiona o fato de que a situação de risco não deveria existir, independente de a mulher estar em situação de vulnerabilidade ou não.

Agora, quando uma jovem virgem, de boa família tem o seu quarto invadido por um homem que a violenta, todos acham um absurdo e vão para a internet criticar a minissérie, ao invés de levar o debate para onde ele de fato faz sentido, que não é o da ficção, mas o da realidade nossa de cada dia.

Muito me incomoda cogitar que a possibilidade de repugnância à cena de Alice Wegmann com Selton Mello seja tão somente o renovação do discurso de que há mulheres que podem ser estupradas e de que há mulheres que não podem ser estupradas.


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