11 janeiro 2016

Frida Kahlo, Rauda Jamis

Ficções nascem de muitas coisas ou quase nada. Já uma biografia pode nascer do desejo ou mesmo da necessidade que algumas histórias precisam ser contadas. Grande e encorpada assim é a biografia romanceada que Rauda Jamis nos apresenta de Frida Kahlo. Um magistral jogo narrativo tecido através de documentos, cartas, relatos e a delicadeza da autora que mistura sua voz narrativa à forte personalidade de Frida.

Rauda inicia o livro de uma forma que gostei muito: antes do começo (!). Essa descrição soa estranha, mas os primeiros capítulos “De onde? Wilhelm Kahlo e De onde? Matilde Calderón” datam os acontecimentos da vida dos pais de Frida e a forma como cresceram se encontraram, recriando o universo que inclui não só a aparência desses personagens, bem como suas peculiaridades e sonhos.
Quando começa essa história, ele tinha dezoito anos. Um rapazinho, não muito grande, magricela, de caráter mais reservado, porém incontestavelmente sensível e inteligente; aliás, gostava de música e leitura. Tinha a fronte alta e olhos claros, desses olhos que nunca se chega a saber se estão mergulhados na melancolia ou no sonho, presentes ou ausentes, distantes. (p.17)
Depois desses primeiros capítulos eu já estava completamente envolvida com essa história.

Acredito que não existe uma fórmula para o sucesso de uma narrativa, mas com certeza há o melhor jeito de contar uma história, e aqui, os acontecimentos são entrelaçados de forma que momentos trágicos da vida de Frida, como o acidente que a marcou para sempre, ou os abortos, formam uma curva dramática, um clímax, que quando narrado em primeira pessoa traz para a construção textual tamanha verossimilhança que por vezes acreditei serem palavras da própria Frida.
O corpo me afogou, cada uma de suas fibras culminou no monstruoso, ultrapassando as fronteiras do funcionamento que lhe cabia. E a sensação, que desde então nunca mais me deixou, de que meu corpo concentra em si todas as chagas do mundo.
E o que mais me tocou nas inúmeras passagens em que a autora personifica a voz de Frida, não foi apenas o texto em si, mas na ideia que propõe: uma mulher que por TODA vida sentiu dor, e que mesmo diante de tantas limitações não se vitimou, não sentiu pena de si mesma, pelo contrário, Frida dissipava beleza e vida muito além de suas telas e cores.
Trajes de Frida na exposição Frida Kahlo - conexões entre mulheres surrealistas no México.
Foto: Isabelle Pantoja
Outros aspectos interessantes abordados  no livro são o contexto histórico; o México revolucionário em um cenário intelectual e político, que aparece de forma mais pontual no capítulo “Algumas notícias de dez anos de revoltas e revolução”; bem como  a presença de personagens importantes como Trotsky, Picasso, Breton. Duchamp, Kandinsky e claro Diego Rivera. Deste último, além de desvelar ao leitor um pouco de sua personalidade e da relação com Frida, temos trechos em que o pintor comenta a arte da esposa, o capítulo “Frida, por Diego”.
Ela enxerga, no infinitamente pequeno, muito mais do que nós, e isso se acrescenta ao seu poder de penetração implacável das ideias, intenções ou sentimentos de outros. Seus olhos têm a potência de um microscópio, seu cérebro tem a potência de um aparelho de raio X que se inscreveria em transparência a criatura do ser sensitivo-intelectual que ela observa. (p.292)
Nesse livro não encontramos apenas Frida Khalo, a pintora conhecida e respeitada mundialmente, encontramos a mulher, irmã, filha, esposa e amante Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, em mais que uma história de vida, um relato em como o amor à arte pode mudar uma vida.
Frida estava decidida a pintar seu universo, real ou simbólico, sem que nenhum freio moral ou estético viesse entravá-la. Em sua dor, Frida era livre.
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