28 janeiro 2016

A redoma de vidro, Sylvia Plath

Quando estou diante de um poema, sempre me pergunto como seria um mundo ficcional desenhado por uma poeta. Mas, nem todas se arriscam na prosa, então, quando uma delas escreve um romance você deve considerar essa leitura, pois o olhar poético está lá, a cada página, e assim como na poesia, pode nos dar a chave para novas portas com perspectivas diferentes.

Por isso, quando uma poeta, como Sylvia Plath cria um romance você não pode perder esse livro(!).A redoma de vidro é o único romance da poeta publicado, sob o pseudônimo Victoria Lucas,  pouco antes de seu suicídio e por isso muitos consideram uma obra autobiográfica.

Um livro ímpar, de um enredo despretensioso, mas, muito denso. Nele, encontrei Esther Greenwood, uma jovem do interior dos Estados Unidos que ganha  uma bolsa de estudos para fazer estágio em uma revista feminina em Nova York. Contexto ideal para uma moça como ela ter experiencias incríveis. Mas, nesse novo universo, a protagonista passa a questionar alguns valores da sociedade, as opções que uma jovem como ela tem: um casamento com um estudante de medicina ou a carreira de mulher independente e intelectual.

Esses dilemas incitam um conflito na vida de Esther, que passa a ter um olhar diferente sobre sua vida e tudo que antes a deixava satisfeita, agora passa insípido ao seu coração.
“(Me sentia muito calma e muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.)” p. 9
 Há em muitos romances esse tipo de conflito, mas aqui, a poética de Sylvia faz toda diferença. As frases curtas, os parágrafos diminutos criam uma narrativa permeada por pausas significativas, pertinentes, pois as imagens que Sylvia desenha são muito cruéis. Todos esses recursos formam a discreta melancolia na voz de Esther, que me envolveu em um silêncio carregado, sólido e resistente.
O silêncio me deprimia. Não era o silêncio do silêncio. Era o meu próprio silêncio.” p.26
A autora foi tecendo sua pequena redoma de vidro em volta de duas personagens: Esther e eu.  Porque não há como filtrar a carga que Sylvia deposita em cada frase, basta que se tenha sensibilidade e um pouco de melancolia para perceber que o drama de Esther em algum momento, ainda que breve, também já foi nosso.
Sylvia Plath, a mais viva expressão do drama.

“Eu não sabia o motivo, mas sabia que se qualquer pessoa falasse comigo ou me olhasse de perto as lágrimas pulariam dos meus olhos e os soluços pulariam da minha garganta e eu choraria por uma semana. Podia sentir as lágrimas se acumulando e se agitando, como água na borda de um copo cheio e instável.” p.115
Lentamente, a poeta revela a gravidade da doença de Esther. A depressão da personagem foi tomando nuances mais escuras: a ausência de apetite ou higiene, as noites de insônia, tudo isso, conduzido pela narração em primeira pessoa que me fez seguir Esther; suas pegadas conduzem para uma busca ansiosa pelo suicido e pra minha surpresa de leitora, eu queria que ela conseguisse seu objetivo, pois assim como ela, ansiava para que aquela angústia chegasse ao seu desfecho.

“Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim.Um sonho ruim.” p. 266 

Mesmo quando Esther começa o tratamento para depressão, ainda assim, o tom narrativo não é tranquilo; dúvida, insegurança e medo embalam a personagem. As citações se transformam em mensagens cifradas da poeta, que mais parece estar falando de si mesma.
“onde quer que eu estivesse, estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.”p.208
Ao final do romance a escritora não esclarece se Esther saiu realmente da redoma de vidro. Nesse ponto, senti que Sylvia deixou à interpretação do leitor. Pois, ao fim de tudo, a cura – ou não – da personagem não é o que importa. E sim os caminhos, a descoberta de si mesma, a necessidade de ver seu pior lado e seguir. Eu fiz uma boa descoberta, percebi em mim a persona que não é bonita, mas que está lá, o lado triste (e necessário).

Há dias concluí essa leitura, e enquanto você lê essa resenha, ainda tenho os vestígios do que a poética de Sylvia fez comigo. Esther pode ser qualquer pessoa. Pode ser você. 

A redoma de vidro não se trata apenas de uma história triste, nem de um enredo que descreve os devaneios de uma mente doente. Nesse livro, Sylvia não te dá uma chave. A chave está com você. Sempre esteve. Poeta, ela sutilmente mostra a porta. E uma vez ali, é você, e só você quem decide dar meia volta ou entrar.

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