23 dezembro 2015

Sobre Kéferas, Incêndios e Afetividade

À deriva nesse universo que é a internet, deparo-me com o seguinte compartilhamento feito por uma colega dos tempos da graduação:


O tuite de um modo geral é bem triste, mas pra mim é ainda pior quando separamos as partes para, enfim, reconstruí-lo e o vermos de novo. Bom, separar em partes é o que pretendo fazer nesse texto.

O primeiro ponto que eu gostaria de comentar é o lance de destruição de um patrimônio público de um modo bem abrangente. Achar que incêndio é uma coisa tranquila, pode ser de que bem for, é em si já uma ideia absurda. Achar que o incêndio na Estação da Luz, no local onde fica o Museu da Língua Portuguesa é ainda mais absurdo. Primeiro por conta de uma questão arquitetônica. É um bem que conta um pouco da história da cidade de São Paulo, segundo que é um lugar onde pessoas transitam – a estação da Luz continua funcionando e linhas tiveram que ser paradas por causa do ocorrido, atrapalhando a vida de muita gente no seu direito de ir e vir na cidade – e terceiro, afetou uma representação material de um dos nossos símbolos nacionais, o acervo do Museu.

Sim, símbolo nacional. Embora saibamos que a Língua não é uma coisa fixa e igual pra todo mundo, ela é um dos símbolos de união nacional. Para quem não se lembra das aulas de história, quando os Estados Nacionais começaram a ser formados, um dos elementos formadores de identidade nacional foi a Língua.

A língua que a despeito de tudo, traduz em palavras as nossas afetividades e os nossos dissabores, a nossa evolução enquanto sociedade, a nossa inventividade e a nossa literatura. Era isso que estava ali guardado dentro do Museu da Língua Portuguesa. Estava nele inscrito parte da nossa história, com todas as diferenças que ela é capaz de produzir em seus mais diversos modos de se expressar linguisticamente.

É isso que se perde. É algo que não tem como recuperar com dinheiro, porque está além do que é material.

Quando a menina que tuitou que estava tudo bem os livros serem queimados por serem velhos, eu fico pensando em quanto as cada vez mais deixam de dar valor ao que é perene, ao que é seu fora de uma individualidade egocêntrica, em como ela está tomada pelo prática do “imediato”, do quanto ela não percebe o que de sua própria história ela perde.

Há algum tempo, cheguei a conclusão, junto com um amigo Dr. em História, que a juventude sempre acha que a História começa com elas. Que tudo começa com elas. Falta-lhes noção de tradição e do que veio antes. Uma banalização do pensamento Modernista. Pra quem cospe que os modernos acabaram com a métrica e com os deuses do cânone, vale lembrar que eles conheciam muito bem quem eles atacavam e poderiam ter voltado a ser “conservadores” a hora que bem entendessem, pois eram versados na tradição.

Mas voltando a guria...

Ela se tornou uma daquelas pessoas que acham tudo certo livros serem queimados, de Fareinheit 451.

E aqui eu nem entrarei em discussão sobre qualidade literária, porque é algo que acho que não cabe. Não conheço o canal da Kéfera e nem li o livro dela. Não a demonizo e nem a idolatro. Mas não acho que o livro dela seja mais importante que qualquer outro livro velho, independente de que local ele esteja. Também não acho que o livro dela deveria ser queimado. Aliás, nenhum livro deve ser queimado, independente dele ser considerado bom ou ruim, já que ele é a manifestação de um trabalho de muita gente e congrega ideias que, bem ou mal, circulam/circularam entre pessoas.

No mais, não é preciso gostar dos livros ou conhecer o acervo do Museu para poder se condoer com o que ali foi perdido, basta ter a consciência de que ter a noção de que algo que conta um pouco de nós mesmos, da língua que falamos e de como ela chegou até aqui, formando-nos e formando Kéferas (para o bem ou para o mal), que guarda um pouco da nossa afetividade, pois a língua é afetiva, guarda em si as nossas primeiras palavras ditas, os primeiros livros lidos, o primeiro “eu te amo” e os muitos “adeus” que damos nessa vida.

É a língua, inclusive, que não mais será ouvida na voz do bombeiro que morreu ao tentar conter as chamas.

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4 comentários:

  1. Tive a impressão de que a menina pensa que se trata de uma biblioteca. E associa a palavra "museu" a coisas velhas. É evidente que nunca foi lá e nem sabe o que havia naquele espaço. Pessoa imatura. Quem sabe um dia...

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  2. Ela é só um retrato do desconhecimento e ignorância (no sentido literal da palavra) de uma sociedade que preza tanto pela informação, mas não tem educação suficiente para selecionar e entender as informações que permeiam a sua vida. Primeiramente, se ela conhecesse um pouquinho do Museu da Lingua Portuguesa, ela saberia que o numero de obras que la existem, apesar de serem importantes, mas não são unicas, pois seu acervo nao centra-se em livros. Talvez se a Biblioteca Nacional tivesse pego fogo, ela teria muito que sentir (porque tambem existe o livro sa Kefera la, mas nao é essa questao).Segundo, acontece que maior parte do acervo do Museu da Lingua Portuguesa é digital (inclusive ela pode ter tropecado neles na Internet e nem se deu conta) e para o desgosto dela, esse acervo todo tem um backup e poderá ser recuperado. O que nao poderá ser recuperado é que ele irá passar muito tempo fechado, sem poder transmitir a informação, já selecionada e de grande importancia, para a nossa sociedade, tendo em vista que para existir Keferas no dia de hoje, foi necessario uma construcao historico-social da linguagem para que assim a vlogueira que ela tanto curte pudesse ser acessivel para ela. Enfim existiram tantos pontos importantes que poderiam ser mostrados, alguns pontuados muito bem nesse post que tentariam mudar o ponto de vista de alguem como essa menina, mas é provavel que nao faria diferenca, porque não sendo a Kefera que falou, seriam simplesmente palavras de serem compreendidas, porque assim ela decidiu selecionar as suas informações, dentro dessa sociedade que quer te moatrar o mundo, mas nao explicar nem um grao de areia que exista nele .

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  3. Eu só queria entender: quem diabos é Kéfera?

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    1. Ela é uma youtuber do sul do país, que por ter conseguido milhares de inscritos no canal lançou um livro na Bienal do RJ esse ano.

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Ronrone à vontade.