11 novembro 2015

Strange Fruit: a canção que se fez mito

Capa da edição brasileira pela Cosac Naify.
Fonte:
Google imagens
Depois de ter lido Strange Fruit: Billie Holiday e a biografia de uma canção questiono alguns pontos e penso sobre outros levantados durante o texto.

Strange fruit é uma música que de forma extremamente poética vai falar dos linchamentos de homens e mulheres negros no Sul dos Estados Unidos. O ano ainda é 1939.O autor? Um judeu chamado Abel Meeropol, que logo seria deixado de lado com a performance e todo o mito que seria criado em torno da canção e da própria Billie Holiday, que em sua autobiografia e em muitos momentos afirmava ser uma canção dela.

A autoria, embora vivamos uma época em que o plágio é algo considerado crime, é uma coisa que na verdade pouco nos interessa, não só nesse texto, mas ao que pareceu para o livro do próprio David Margolick que, embora tenha discutido isso, tem uma visão muito interessante de como a autoria poderia ser de Holiday: a identificação e o fazer-se identificar-se com a canção, por meio de performance única, o que, de acordo com o livro, se tornou um divisor de águas na vida da cantora.

Também é creditada à canção uma força de ser um gérmen de mudança de conduta social. A ela é creditado certo início do movimento contra o racismo nos Estados Unidos, mas teria sido ela mesmo algo tão poderoso que foi a gota d’água na questão preconceito racial?

Como uma música que basicamente circulava em bares e clubes, cantada por músicos que não preenchem uma mão, uma canção que basicamente só pessoas com uma boa educação conseguiam compreender o seu significado, uma canção que não circulava nas ondas do rádio poderia ser para uma grande população algo que as indignassem ao ponto de mudar o status quo?

Billie Holiday. Fonte: Google Imagens
Uma canção que até hoje é pouco tocada e que poucas pessoas parecem conhecer, de acordo com o livro, poderia ser algo tão poderoso assim?

A primeira resposta que poderíamos considerar é que não. Que há não só uma aura em volta de Billie Holiday no que se refere a canção, como em torno dela no que se tange a sua importância.

Uma outra resposta está justamente em se perguntar o porque essa canção era pouco reproduzida ou os motivos que a deixavam tão difícil de ser compreendida pelos homens e mulheres negros menos instruídos. Acredito que esse seja o caminho. A música precisava ser silenciada por ser muito forte para o estômago de quem a escutava (tanto que depois dela Billie não cantava mais nenhuma), e o seu silenciamento a deixava mais poderosa enquanto enunciado.

Sua força reside e permanência reside justamente nesse silenciamento, diferente do que acontece com outras obras que precisam do gosto do público e sua reprodução constante. Strange fruit enquanto obra e performance de Billie tinha isso por si só. Únicas.

Talvez a compreensão da música e da sua importância seja a junção das duas respostas. É preciso resgatar a canção. É preciso resgatar Billie Holiday como artista negra. Mostrar a força do silêncio que a canção precisava para sangrar o preconceito das pessoas que a escutava, pra sangrar o preconceito que as pessoas negras sentiam.


Se a canção teve o poder de mudar as pessoas ou pelo menos tocá-las em algo no qual elas se permitiram mudar e a lutar para que mudasse em muitos e para muitos, se há essa fé na canção, é isso que importa.

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