04 novembro 2015

Distopias versus Distopias

Recentemente, enquanto eu lia o primeiro volume da trilogia Anômalos, de Bárbara Morais, percebi certo padrão nas distopias que têm sido publicadas desde o sucesso de Jogos Vorazes, de Suzanne Collins, que as diferencia e muito das publicações clássicas, como Fahrenheit 451 e Admirável mundo novo.

O primeiro ponto de diferença entre as distopia do passado e as nossas contemporâneas encontra-se na sua extensão narrativa, que nada tem a ver com a profundidade dos assuntos discutidos. As primeiras se concentravam em um único volume, enquanto o padrão atual é o de trilogias (que também se estende para outros tipos de produção ficcional).

O segundo, que possivelmente está relacionado com a extensão mencionada acima, é o fato de que, diferentemente das clássicas, as distopias contemporâneas ultrapassam as questões pessoais de suas personagens, expandindo a consciência e atuação dos protagonistas em questões que mudarão toda a sociedade em que estão inseridos. Tanto em Fahrenheit 451 e Admirável mundo novo, parecia haver uma resignação quanto ao modelo social. O que se resolvia eram vontades muito particulares e pontuais de determinados sujeitos. Eles tomavam consciência de sua condição e conseguiam modifica-las, mas para isso iam para um exílio. Eles passavam a ser proscritos. Sua existência passava a ser a de inexistência para o grupo social do qual faziam parte.

Isso não acontece nas trilogias distópicas atuais, como Jogos Vorazes, Divergente, Anômalos e Legend. Se em um primeiro momento temos isso posto no primeiro volume, eles deixam um gancho em que os protagonistas acabam se envolvendo, por conta de sua postura diante de questões pessoais, em questões de Estado. São essas questões, tramas e conspirações que os levarão junto com parte de uma sociedade oprimida e com consciência disso a se rebelar, instaurando assim um cenário de guerra, que no terceiro volume é “resolvida”, instituindo novos modelos de organização social.

E, embora isso traga algum tipo de esperança, como sugere o último título da trilogia Jogos Vorazes, o que temos ainda é um ambiente em que a felicidade é uma coisa de final de contos de fadas. É uma ilusão.

Outro aspecto muito interessante está em quem são os protagonistas das história,s e não sei se poderíamos estabelecer uma relação precisa com quem escreveu as obras, já que pode ser apenas uma questão de abertura do mercado editorial. Contudo, não há como passar despercebido o fato de as novas distopias serem escritas por mulheres e que estas constroem personagens principais femininos: Suzanne Collins e sua Katniss, Roberta Spindler e sua Beca, Bárbara Morais e sua Sybil, Marie Lu e sua June e Veronica Roth e sua Beatrice; enquanto as clássicas são personagens masculinas construídas por escritores homens.

Claro que esses pontos são apenas os que mais saltam aos olhos e não colocam nenhuma das obras em posição de superioridade ou de inferioridade, mas tão somente explicitam a reorganização e uma nova configuração da mentalidade da sociedade ocidental no que se refere a produção literária distópica.


E você, quais outras características você percebe nas distopias atuais que as diferenciam das clássicas?



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Um comentário:

  1. Sim, já havia notado esses padrões de escrita. Pode ser uma questão mercadológica, mas também pode ser uma questão de "escola literária", não sei. A verdade é que nossa escrita se assemelha ao que andamos lendo, então isso pode ser uma das explicações também. Acredito que a presença de personagens femininas sejam também porque são autoras, mas sobretudo por um vácuo que havia de personagens no estilo dos novos livros distópicos, protagonistas femininas principais e fortes. É possível também que a questão da "esperança" e da mudança estrutural da sociedade presente seja reflexo dos valores da nossa geração com a ideia de que "yes, we can". Muito legal o post!


    http://dosdiascorridos.wordpress.com

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