16 outubro 2015

Saintias: o protagonismo feminino em uma nova saga de Cavaleiros do Zodíaco



Em um texto anterior “Saint Seiya e os papéis de gênero”,  busquei falar um pouco de algumas mudanças que eu percebi nas novas sagas em relação, principalmente, aos papéis femininos, que começaram a ter um pouco mais de destaque e protagonismo, mas que ainda pareciam estar subordinadas a uma perspectiva de que mulheres precisam ser protegidas, já que são mais frágeis.

É interessante pensar isso novamente, depois de ter escrito aquele texto, pois imagens de personagens como a Shina de Cobra me vêm à mente. Ela, uma inimiga poderosíssima na primeira parte do desenho, no retorno da fase Ômega se tornou a protetora de Athena e a treinadora do novo cavaleiro de Pégaso, Kouga.

É nessa fase também que além das amazonas de ouro, temos no grupo principal dos cavaleiros de bronze uma amazona, que não tem mais a necessidade de esconder o rosto e, portanto, aquelas regras de ter que matar ou se apaixonar pelo homem que ver o seu rosto, como aconteceu com Shina e Seiya, caem por terra.

No decorrer das Sagas também vamos percebendo em algumas fases que o papel feminino é imprescindível para o retorno dos grandes vilões, mas toda essa força é usada apenas para a subserviência. Lembremos de Pandora e de Medeia, mulheres poderosas, manipuladoras das vontades de seus mestres e que no fim, acabam por se tornarem fracas, já que fiam subjugadas ao despertar total das almas de entidades muito superiores a elas.

É com essa visão de que cavaleiros, embora inscrito em um tipo muito específico de mangá – o shonen, acabam sempre por, no fim, se restringir a superação dos meninos e da força que eles têm, que terminamos o texto anterior, sem claro, deixar de desejar que a situação começasse a se mostrar um pouco diferente nas sagas que talvez venham a ser produzidas ou aos spin-offs que tem saído aos montes.

Foi então que um colega do clube do livro do qual faço parte, o PA BOOK CLUB, me falou de um mangá que ainda está sendo lançado no Japão, o Saintia Shô, no qual a protagonista é a Saintia de Cavalo-Menor, Shô e que a presença de meninas é massiva.

Fiz uma busca pelo Google e também na Amazon francesa, que é onde eu tenho o hábito de importar alguns títulos de mangá BL, encontrei os três primeiros volumes da saga. Encomendei.

A história gira em torno da ressureição de Éris, a deusa da discórdia, e ocorre no início da Guerra Galáctica, ou seja, antes da chegada de Seiya. Nesse momento, Saori é protegida pelas Saintias, que são guerreiras que não precisam esconder o rosto como as amazonas e servem não só como guarda de proteção da reencarnação de Athena, mas como uma espécie de “damas de companhia”. No treinamento delas, além de aprenderem a lutar e controlar o cosmo como os cavaleiros normais, elas aprendem como se portar, a cozinhar. Ou seja, a serem garotas prendadas, quase moças casadoiras.

Assim, o preço por não renunciarem a sua feminilidade com o uso da máscara, como as amazonas, elas são obrigadas, para exercer suas funções, fazer jornada dupla como as mulheres de nossa própria sociedade, que além de ajudarem com as despesas da casa ainda devem administrar a casa e os filhos.

Também me parece o caso de elas só estarem ali, pelo fato de os cavaleiros de bronze principais ainda não terem estabelecido e ocupado o seu lugar de protagonismo, tornando-as assim uma espécie de temporárias. Claro, essa interpretação também esbarra no fato de ser uma saga escrita e produzida muito tempo depois da saga original, o que leva a umas boas discrepâncias.

Outra coisa interessante é o fato de as Saintias protegerem a Saori de uma Deusa, a deusa da discórdia. Há muitos discursos que poderíamos explorar a partir disso.

Primeiro o de que a discórdia é sempre encarnada por uma mulher e que ela acontece muito entre mulheres, como no próprio mito do pomo da discórdia, em que as deusas olimpianas, por questões de vaidade, disputa entre si o título de mais bela, inclusive Athena, que deveria ser a deusa de maior razão e discernimento.

Segundo que as Saintias seriam o suficiente para encarar uma deusa, mas será que elas seriam cotadas para proteger Athena de um deus?


Sob os aspectos de papéis de gênero, mesmo com um protagonismo muito maior, devemos parar para entender como ele é construído e, embora a proposta seja um avanço no mundo de Cavaleiros do Zodíaco, essa saga ainda deixa a desejar na maneira como trabalha as personagens femininas.

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