29 outubro 2015

Poética Volátil

Surpreendente é a coincidência entre o tempo e a poesia. Nesta coluna, sempre prefiro escrever sobre o autor que vem deixando meus dias mais doces; sobre o livro que está comigo pra cima e pra baixo, apertado em minha bolsa, esperando um minuto qualquer para me levar para longe; para ser minha pequena ilha.

A eleita da vez é Ana Cristina Cesar e, nessas coincidências que o acaso permite, fiquei surpresa ao perceber que exatamente na data de hoje, 29 de outubro, há trinta e dois anos, a poeta deu fim ao verso. Na tarde deste dia, Ana C. atirou-se pela janela do apartamento dos pais.

Passei os últimos dias acompanhada de Poética, livro publicado em 2013 pela Companhia das Letras, que traz reunida pela primeira vez, a obra poética de Ana C.. Com um excelente trabalho editorial, a edição conta com ilustrações da autora, imagens de originais e também textos de sua fortuna crítica, o que pra mim como leitora primeira foi um presente, pois me permitiu sair de águas rasas e mergulhar em sua poética de confissões e ficções.

Maio de 1975. Acervo do instituto Moreira Salles do Rio.
Assim como na vida em que cada um tem seus passados, seus conflitos, suas melancolias, em seus versos, Ana C. conduz o leitor aos lugares mais comuns do sentimento e traz a emoção de quem reconhece os traços do cotidiano nas imagens vívidas que a poesia permite.

A poeta é de uma geração que fazia seu próprio livro, distribuía entre os amigos - a geração mimeógrafo, que eclodiu nos anos 70 - assim, a poesia de Ana C. foi o desenvolvimento de um processo radical de mudança de estágio cultural que levou a crítica a rever o gosto, o acesso e – o que é mais importante – as possibilidades literárias, já que essa poesia queria tirar o autor do pedestal.
vacilo da vocação
Precisa trabalhar – afundar –
– como você – saudades loucas–
nesta arte – ininterrupta –
de pintar –

A poesia não – telegráfica – ocasional –
me deixa sola – solta –
à mercê do impossível —
                                      –do real. (p.99)

Em sua tessitura literária transparece como questão central, pra ela, o ritmo, o som da frase. Seus versos pedem repetidas leituras para encontrar o sentido, numa composição poética que convida o leitor a descobrir, a experimentar o sabor de agarrar o presente, falando da vida ao mesmo tempo em que ela acontece.


O tom confessional presente em sua obra propicia ao leitor ser mais que um leitor, torna-se um confidente (!), como se fosse alguém especial para ela. Usando a expressão de Silviano Santiago : um singular e anônimo leitor.
Tudo que está aqui já está em você, só que você não sabia, e por isso é que está me lendo, senão não precisaria me ler. (p. 462)
Diário, diálogos, correspondências, intertexto. Caminhos que se bifurcam mas destinam o leitor ao mesmo fim:  a sensibilidade para o momento revelador, para o detalhe do presente que na hora, os outros não dão importância. Tudo isso por um discurso líquido que balança o chão das certezas, do acabado. A sua densidade literária é uma prova de como a poesia pode estar inteira mesmo nas formas mais aparentemente marginais.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ronrone à vontade.