02 outubro 2015

Com quantos enredos se faz um romance?

O que faz a unidade de um romance ou de um livro? É necessária uma narrativa que se fixe em um personagem principal? É preciso um tema que conduza toda a espinha dorsal do texto?

Quando questiono isso, não dá simplesmente pra se fechar em um único aspecto, ainda mais com a produção literária que temos visto ser produzida. Com toda liberdade estética advinda após o modernismo e a pulverização que, depois dos tempos fragmentados, não nos transformou em pó, mas em relações líquidas. Maleáveis, dissolvidas e dissolventes.

Desde quando eu comprei Nocilla Dream, de Agustín Fernández Mallo e publicado no Brasil pela Companhia das Letras, que passei a prestar mais atenção às sutilezas da unidade nos textos literários.
Nocilla trás pequenos textos que, a princípio não parecem ter nenhuma relação entre si, mas então que personagens e cenários vão se imbricando em outras histórias, anedotas dentro de outras anedotas e, assim, vai se constituindo alguma coisa.

Pelo menos foi isso o que me pareceu até onde eu o li, o que foi equivalente à metade do livro e isso já tem mais de um ano.

Recentemente, e é por isso que esse assunto voltou com mais força aos meus pensamentos, eu li o livro Meus documentos, do Alejandro Zambra (meu autor latino-americano favorito) e publicado pela Cosac Naify.

Há quem o considere um livro de contos, e são contos, e outros que na unidade de “documentos” consideram como um romance. Mas seria um romance que conta a vida de quem?

Estamos habituados ainda a considerar que, para ser um todo, algo tem que estar em foco, mas... e se o foco não for necessariamente uma personagem, mas uma ideia?

Em Meus documentos, acredito que essa seja a ideia. Penso que seja a imagem dos documentos, não enquanto textos que estavam dentro de uma pasta no computador, meio que esperando algum momento redentor, e sim como um romance que nos apresenta a ideia de eu nossos documentos, quem nós somos, são as histórias que guardamos e relembramos e contamos pros outros. São as histórias de nossas vidas que dizem quem somos verdadeiramente; o nosso comportamento, os nossos desejos, os nossos amores...

Dessa maneira, o livro é a história da vida de pessoas. É um romance de pessoas e suas histórias. É como se fosse uma grande mesa ou balcão de bar, somos as personagens que contam as histórias que ficam reunidas no garçom ou barman.

Depois desse livro de Zambra, peguei o novo livro de Raphael Montes pela Companhia das Letras, O Vilarejo, para ler. Eu queria uma coisa curta e o livro, além de ter um trabalho gráfico lindo, era a oportunidade de me desfazer da má impressão que eu tive com Dias perfeitos.

O vilarejo estaria num entrelugar, quando consideramos os dois livros anteriormente apresentados. Ele conta a história de um vilarejo, das pessoas que o habitam, mas sempre indo de encontro a um tema: os sete pecados capitais.

Os contos não são apresentados de forma linear, mas a organização sequencial dá uma ordem que faz muito sentido, embora, como mesmo diz Raphael no prefácio, não há uma ordem de fato para a leitura.

No entanto, seguir a ordem faz o efeito circular de leitura. Fecha um ciclo, já que o primeiro capítulo/conto é retomado e “finalizado” com o último, dando assim, toda a unidade que a obra precisa e fazendo dela mais que um livro de contos de terror em um pequeno vilarejo, mas um romance “curto” sobre o vilarejo. O vilarejo que sucumbiu aos setes pecados capitais.

Temas, personagens e mesmo uma ideia geral vão se imiscuindo e fazendo do livro uma unidade, ditando um romance sem o compromisso de seguir linearidade, de se ater a um único enredo.


Aliás, essa capacidade do romance em ser um gênero que não tem uma forma pré-estabelecida é talvez a sua característica, enquanto gênero literário, das mais fascinantes e, por isso, tenha se tornado um gênero tão popular (tanto em sua produção como em sua recepção).

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