23 setembro 2015

Perspectivas de análise literária

Atualmente, muitas são as possibilidades de se analisar uma obra: pelo seu viés estético, psicanalítico, social, discursivo dentre muitos outros e, talvez, a forma mais tradicional e conservadora de se pensar as obras artísticas – e, aqui, isso será entendido prioritariamente como textos literários; seja a de compreendê-las por meio de sua composição estética, de como se faz uso do estilo e dos recursos da linguagem, de modo a dar a obra um caráter que nos permitiria atestar a sua face artística.

Ver as obras sobre essa perspectiva também permite a busca por traços de sua hereditariedade, a qual tradição (ou tradições literárias) encontram-se filiadas. Casos extremos dessa conduta diante do texto podem ser verificados na maneira em como se concebia o valor literário das obras no classicismo e o modelo épico e no parnasianismo, na busca pela justa palavra, incrustada como uma pedra perfeitamente polida e brilhante pelo poeta-artífice no poema.

Ainda hoje, embora com menos ênfase e aliada à outras abordagens, a estética e a estilística permanecem e, em alguns casos, ainda com a missão de atestar o que será elevado ao estado de Arte e o que não será. Ainda bem que tal postura é cada vez menos comum.

Todavia, isso não significa que pensar um texto pelo seu viés estético ou estilístico seja ruim, já que não há linhas melhores que as outras dentro da análise literária, apenas diversas e que buscam por meio dos métodos que lhes são dispostos a falar da obra sobre uma determinada ótica, que é apenas um das muitas possibilidades do objeto observado.

O problema se encontra quando pensasse que tal método é melhor para determinada obra, posto que essa escolha não é feita pela obra e pelo que ela nos diz, mas pelo sujeito que interage com ela que busca dizer algo específico sobre ela.

Quando a obra é tomada, por exemplo, somente pelo seu viés estético, pelas engrenagens que a fazem ser o que é e funcionar da maneira que funciona, mas sem fazer nenhuma outra relação com o que não seja maquinaria e estrutura, ela perde o que lhe é de mais precioso, a meu ver: os discursos que são ali engendrados e os diálogos que são postos em movimento com o público. Ela acaba por se tornar uma alma presa em uma peça de mármore fria. Estéril.

Perspectivas como a análise do discurso e a estética da recepção são campos dentro da crítica e teoria literária que dão conta justamente desse meio de compreender as ideias que movimentam a obra de arte e as relações por ela estabelecidas, e que muito se beneficiam com as contribuições da estética e da estilística, como de outros campos, para tal compreensão.

Perceber a obra desse jeito é justamente encarar que a obra não se restringe a si própria e que transborda por meio do que o público diz dela, da forma em que ela se apresenta e se vende e tudo o mais que está em seu redor.

É importante, pois que é esse transbordamento que faz dos clássicos serem que são e terem a importância que têm. É o que eles dizem e o que se diz deles que faz com que se mantenham presentes ainda hoje em nossas vidas, não necessariamente a forma estilística ou estética de sua composição, não que isso também não tenha sua importância. Acontece que é mais o que essa estética fala e mostra em sua forma do que o recurso estar no texto, já que nem sempre o recurso alcança a sua intenção. O recurso estético só tem efeito quando ele atinge a capacidade de nos dizer e revelar algo, se não tornasse peça desnecessária. Um peso. Frivolidade.


Ainda que não se tenha perspectivas corretas e únicas para se analisar um texto, acredito que, a estética e a estilística ou qualquer outra perspectiva mais estruturalista e fechada no texto e em suas engrenagens de construção, sirvam como regras rígidas de prescrição e instauração de uma ideia do que seria arte, literatura. Uma ideia que, penso eu, cria uma forma ideal, homogênea  dessa produção e que, por conseguinte, afasta as pessoas dela.

E o que seria arte ou literatura se não fossem as pessoas e o que elas dizem das obras que dialogam com elas?

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