09 setembro 2015

Mas em pleno século 21... Simplesmente, pare!

Fotos húngaro Zoltan Kerenyi, em seu trabalho “Janela para o passado"
Algo muito comum, quando vemos uma situação que acreditamos estar presa e enterrada em nosso passado, é dizer que “em pleno – insira aqui qualquer período de tempo que achar mais adequado –“, como manifestação de nossa indignação.

O problema é que esse argumento é vazio, pois considera a história e, portanto, as relações sociais, como lineares, pertencentes a uma ordem cronológica, quando na verdade o que temos é a coexistência de todas as várias modalidades de relações interpessoais, que, claro, vão se modificando na medida em que as relações se modificam, mas sem serem pulverizadas de fato.

Por exemplo, quando pensamos em escravidão, consideramos que o fato de ela ter sido proibida tenha feito com que tenha deixado de existir, mas a todo o momento denúncias sobre trabalho análogo ao escravo surgem, sejam nas lavouras, onde se produz carvão, nas fábricas de roupas e de eletrônicos e até mesmo em trabalho doméstico. Aliás, este último ainda é uma realidade em regiões mais afastadas.

Com a oferta de levarem as crianças, principalmente meninas, para a cidade grande a fim de proporcionar-lhes educação e oportunidades, essas pessoas de bom coração, fazem delas seus empregados, isso quando não escravos mesmo, já que permitem que estudem (de noite) e tenham um teto e alimentação, imiscuindo neles um sentimento de gratidão, como se estivessem fazendo maravilhas por eles e, assim, conseguindo deles qualquer tipo de favor e subserviência.

Mas a escravidão foi abolida! Bom, não é o que vemos com essas práticas.

Mas então, o que muda com o tempo, já que práticas como essas continuam de certo modo existindo?
O que muda é que há outras possibilidades de existência e comportamentos, abrindo espaço para uma maior luta para que coisas assim não mais aconteçam, que as pessoas que fazem isso sejam vistas como criminosas e possam ser punidas pelos crimes que cometem. Ajuda a proteger e a emponderar as pessoas.

Mas é preciso ter em mente que nem tudo que é do passado, enquanto prática social, é ruim. Também há exemplos muito benéficos de retorno, nos quais o argumento “em pleno – alguma coisa – poderia ser utilizado, e que reforçam a ideia de que ele é esvaziado de força, como é o caso de uma busca por alimentos orgânicos, a convivência e comunidade que permite a roca de produtos, estabelecendo uma relação não comercial e impessoal, mas afetiva e de cooperação, algo que em tempo cronológico está muito distante dos nossos dias e da fragmentação e pluralidade identitária que vivemos.

Também temos que levar em consideração que as mudanças ideológicas não acontecem no mesmo ritmo em todas as sociedades, pois elas têm constituições culturais distintas umas das outras, o que as leva ater posturas diferentes diante de determinadas situações. Exemplo disso é que, enquanto cada vez mais lutamos pela liberdade, pela emancipação das minorias e o fim de um obscurantismo religioso, temos um Oriente Médio que ainda apedreja mulheres até a morte por suposta prática de bruxaria, ou uma Rússia que institui diretrizes homofóbicas e destrói toneladas de alimentos por questões políticas. No Brasil, vemos movimentos que pedem a volta dos militares, uma intervenção no Estado Democrático de Direito ou a tentativa de religiosos de base cristã de impor leis que os privilegiem, evidenciando um período que muito lembra a Idade Média. Tudo isso em pleno século XXI! Em pleno 2015!

O ponto é, quando usamos este tipo de argumento, estamos nos colocando em um lugar muito específico, o de discordância e, por conseguinte, em um discurso ideológico específico, que, embora tenha como objetivo o de indignar-se com situações de barbárie, é monologizante. Ou seja, que desconsidera todas as outras possibilidades de existência, que as quer negar.


A negação não me parece o caminho, pois invisibiliza e age de modo autoritário sobre o outro, o que não é a maneira, a meu ver, mais adequado de fazer com que práticas que consideramos prejudiciais à sociedade sejam mudadas.

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