30 setembro 2015

Entre o prazer e a angústia de uma Poeta Reclusa

A poeta de que falo agora dispensa elogios: Emily Dickinson. Talvez, seja pretensão de minha parte falar da obra que reúne seus poemas - A branca voz da solidão, mas também seria uma contradição não fazê-lo; uma vez que, eu mesma propus tirarmos a poesia do Olimpo(!)  e ainda mais desse livro , que já tornou-se especial pra mim, pois como Gullar disse certa vez: "O poema tem que ser um relâmpago. Ele tem que iluminar a tua cara, bater na tua cara como uma coisa vital". 

Foi isso que os poemas dela fizeram comigo, iluminaram minha face como algo vital. Por isso, pretendo falar deste livro de forma despida, removendo todo e qualquer véu de status, prestígio e influência que o nome da autora tem e que a crítica literária espera.

Conheci Emily num desses acasos da vida; no retorno das muitas visitas que faço à livraria com meu par, vi em suas mãos um pequeno livro, capa simples, poucas páginas e com o nome dela em letras garrafais. Era uma edição bilíngue da editora Imago, Fifty Poems. Curiosa, achei que valia a pena ler. Foi amor à primeira página! Uma poesia singular e atemporal encontrei ali.

Mas eu queria uma obra mais completa. Obtive, em A branca voz da solidão, volume que conta com tradução de um especialista na autora: o crítico e tradutor José Lira, que em seu trabalho revela toda sua paixão pela poeta e dispõe nos versos de sua tradução de uma incrível equivalência poética. Assim, pude partir para uma leitura mais profunda e entrar no mundo de prazer e angústia da poeta reclusa.


A começar pela história de vida de Emily: nascida em 1830 numa pacata cidade de Massachussetts, teve uma vida simples, morava com os pais e os irmãos. Após concluir os estudos teve o destino que a maioria das mulheres daquele século tinham: cuidar da casa e da família. Como não casou e nem teve filhos acabou por ficar na propriedade de seus pais até a morte. Nada de muito incomum até aqui, mas Emily não apenas viveu até a morte na casa de seus pais, esse lar foi o lugar que ela escolheu para se isolar completamente (!) quando tinha apenas 34 anos, não saindo de casa nem mesmo para ir ao enterro do pai.

Para Emily “um poeta é alguém que dá novos sentidos a palavras já vazias de sentido” talvez daí a constante presença de ambiguidade em seus versos, num cuidado de exaurir as possibilidades presentes em uma palavra. Sem falar em sua forma moderna que também contempla prosa, (uma "proesia”, diria Caetano) que esbanja maiúsculas aleatórias pelos versos; além das frequentes disjunções (sinal geralmente confundido com o travessão) que estão em praticamente todos seus poemas e dão um ritmo diferente aos versos. Cada detalhe desses faz que Emily se apresente ao leitor com uma vívida identidade poética.

Seus poemas são em sua maioria curtos, assim em poucas linhas e fugindo da pontuação padrão a poeta constrói um universo multívoco. Para o crítico literário Harold Bloom "Se é possível a algum poeta partir do zero a cada novo poema, é questionável. Mas se alguém é capaz de fazê-lo, esse alguém é Emily Dickinson".

Como grande poeta, abordou temas clássicos, como: vida, morte, fé, tempo, amor, cotidiano, e claro, a solidão. Em especial destaco os retalhos do cotidiano e a personificação dos elementos da natureza, deste um cativou-me de forma doce: a sua assídua menção às abelhas...

Às vezes de afável forma prosaica:
Abelha! Aqui te espero! Eu ainda on,-
tem dizia, a alguém que tu conheces,
Como estás atrasada.
As Rãs já estão em casa desde a últi-
ma semana, os Passarinhos voltando,
o Trevo está no ponto.
Lá pelo dia dezessete receberás esta
carta. Escreve, ou melhor, vem logo.
Cordialmente, Mosca.
Outras  nem tanto:
[...] essa imensurável incerteza
Que agora se interpôs –
É uma Abelha Maligna que me fere
Sem expor os ferrões.
É a própria Emily quem nos dá a chave de sua generosa poesia. Para ela, Natureza e Poesia, são uma só realidade viva, de tal forma entrelaçadas (e personificadas), que a poesia se desenlaça de sua visão do mundo naturalmente, em uníssono:
A Abelha não me tem receio –
Conheço a Borboleta –
Os belos seres destes bosques
Me veem com prazer
Canta o Regato quando eu passo –
Feliz a Brisa dança –
Oh mas por que meu olhos turvas,
Oh Dias de Verão?
A solitude dessa escritora pode tê-la privado de uma vida social, mas jamais a prendeu. Emily cultivou em sua poesia a liberdade de poeta, o olhar sensível de quem mesmo  enclausurada conseguiu ver o mundo. Emily morreu demasiado cedo, mas seu verso permanece vivo como a natureza.

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2 comentários:

  1. Isabelle, seus textos são lindos. Tem sido um prazer renovado a cada postagem. Parabéns!

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    Respostas
    1. Max, que gentileza!
      Agradeço tua companhia na coluna.
      Beijo Grande!

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