07 setembro 2015

Bailarina, de Juliana Sinimbú e Duda Brack




Juliana Sinimbú.
Show Canalha, Teatro Margarida Schivasappa.
Foto: Daniel Prestes
Poesia. Em outro momento, aqui, já tratamos da relação que ela tem com a música, por meio do ritmo, melodia e escolha lexical. Contudo, a música pode nos revelar outros aspectos, que também se relacionam com a poética, que é a construção de um enredo.

Músicas ou poesias narrativas abundam na tradição literária, desde os cantos poéticos de Ilíada e Odisseia, passando pelos Lusíadas até chegar em composições como Faroeste Caboclo, que deixando um pouco a poesia de lado, preocupasse com o enredo. Há também as histórias que ainda fazem parte da tradição oral, poemas que contam a origem do mundo, a criação do mundo de diversas sociedades em que a escrita inexiste ou não tem importância. A musicalidade e a poesia servem como elementos que ajudam na memorização das histórias.

No que se refere a essas histórias, embora se construindo e tratando de diversos temas possíveis, encontram-se interligadas em uma relação de parentesco, a jornada do herói, estudada por Joseph Campbell.

A música Bailarina, de Juliana Sinimbú e Duda Brack, que nos foi pela segunda vez apresentada no Show Canalha, dia 03 (quinta-feira) desse mês no Teatro Margarida Schivasappa é, agora, mais um exemplo de música que se insere no rol de canções narrativas, da jornada de um herói.

No início temos a apresentação da Bailarina e sua condição de não ter um amor, embora desfrute das maravilhas de sua profissão. O refrão marca o objetivo da jornada que se iniciará e nos será contada em atos, como se uma peça de teatro fosse.

A ideia do teatro faz sentido, pois, sendo ela uma personagem que vive sua vida real no palco, interpretando e dançando, nada mais natural que a vida dela seja apresentada como uma ficção ou representação.

Na canção, a Bailarina se liberta das amarras do teatro e sua vida regrada. Abandona as sapatilhas, desfaz o coque e se lança na noite e nas bebidas, de bar em bar. Até que, no ato final, encontra um moreno e com ele decide se aventurar.

Juliana Sinimbú. Foto: Daniel Prestes
Mas, ao invés de sabermos o desenlace da história, o refrão nos indica que nada pode nos ser dito com precisão "E será que é o amor da Bailarina? E será?".

Assim, a Bailarina que se sente incompleta parte em uma jornada a qual não saberemos o seu fim e n qual ela é não só a heroína, mas diversos arquétipos os quais são mostrados a medida que vai se lançando em sua aventura. Objetos e lugares também cumprem papéis arquetípicos, principalmente a bebida, que lhe dá coragem para seguir em frente e a coragem necessária para chegar no moreno do bar.

A canção ainda nos revela a potência vocal de Juliana, nos refrões, além de sua versatilidade ao misturar diversos ritmos em uma mesma composição. É já uma das minhas canções preferidas.

Um comentário:

  1. Muito legal, Dan!!!
    (A maioria dos) livros são narrativas, e músicas também podem ser, como vc bem notou!
    Gostei muito das referências: Ilíada, Odeisseia, Lusíadas, a musicalidade da poesia...
    E essa música da Bailarina é bem legal, gostei!!!
    Beijoooo!
    Nati

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