27 agosto 2015

Um futuro Quixote?

Por Fábio Tadaieski

Na bela edição da Editora Iluminuras, Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, em um ótimo ensaio e tradução esteticamente cuidadosa, escrevem sobre a obra de despedida deste que é, ao mesmo tempo, o mais hermético e mais acessível poeta moderno. 

Há 140 anos, Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, com apenas 21 anos, encerra sua produção poética, entregando a Paul Verlaine, na floresta negra alemã, textos nãos numerados com o título ILLUMINATIONS (colored plates), que havia escrito (provavelmente a maioria) em Londres. 

O termo ilustra a intenção do poeta. As iluminuras remetem ao clássico, ao caminho percorrido pela poesia desde a Grécia por livros medievais até as bibliotecas das grandes cidades e sua iluminação por ideias (e lâmpadas elétricas) que incitam o que, descoberto, passa a modificar o futuro ainda no presente. Tudo passando rápido e fundindo-se em imagens e sentidos que compõem a estética visionária de uma vidência sem rosto e sem autor em que todos os seres, lugares e tempos se absorvem.

Rimbaud abandonaria ali, não só os ciclos literários para sempre, como a sua própria doutrina do “ser absolutamente moderno”. O mais moderno dos poetas abandona sem cerimonia e despedidas o possível prestígio vindouro em Paris. Vivendo em Londres – Meca do iluminismo capitalista, Arthur visita o futuro (que se estende dali até a linha do horizonte onde nos equilibramos hoje) e o abandona. Mesmo sem tê-lo vivido ainda, sabe que para aquela sociedade ele será sempre apenas um “campônio”.

Naquela altura ele já havia passado sua “temporada no inferno”, e o tendo feito na encruzilhada do espaço-tempo moderno, adiantou muitos “ismos” – do futurismo ao pós-modernismo – todas as estéticas do século XX. Sua “noiva infernal” seria hoje um verdadeiro libelo LGBT – uma atitude punk, adiantada cem anos.

Sua alquimia do verbo, de Apolo de 17 anos com a corte de Dionísio a seu favor, fundiria para sempre prosa e poesia, vulgar e erudito, e introduz na história o anti-herói vagabundo como paradigma de herói que vive todas as dores e prazeres da vida aquém do “Sistema” – seja descendo precipício abaixo como uma pedra rolante, ou subindo ao céu numa escada para o paraíso, ele arrasta consigo toda a contracultura e vanguardas nesses 140 anos até hoje, e por muitos anos ainda, até “o sol misturado ao mar”.

Ao chegar a Londres, Rimbaud já não é adolescente, e tendo caminhado pelos campos cercando as cidades e a guerra franco-prussiana, que talvez tenha participado do lado da comuna, tem uma visão geral da sociedade através da luz difusa, que irradia daquela cidade como um facho, o comportamento, costumes e conflitos que se desenvolveriam da modernização das relações a partir dali até um futuro sem data.

O Poeta sente que nenhum modelo lhe serve mais – não há mais lados na política e na economia. A vida moderna é uma via de mão única que transfigura tudo que nela existe, em uma velocidade incontrolável. Transforma nas iluminuras/iluminações o poeta em Quixote – cavalo – Sancho – leitor – cidade – campo – passado – presente – futuro numa só perspectiva estética. Quem caminha por uma grande cidade pode entender como é difícil manter o senso de individuo sem ser diluído na multidão que caminha ordeira na avenida, entra e sai do metrô, dos ônibus, cafés, lojas.

Os autores do ensaio "Illuminations Poesia em transe", nos esclarecem como herdamos de Rimbaud um panorama social sem comiseração. Como ele, “fixando vertigens”, aposentou a metafísica e instalou a fenomenologia na linguagem em prosa poética. Criou uma linguagem necessária para tentarmos entender o que, com o volume de informações e de pessoas nas grandes cidades, torna-se impossível ser captado da realidade.

Henry Miller em sua obra apaixonada, A Hora dos Assassinos, diz que: “existem muitos Rimbaud pelo mundo afora e esse número aumentará com o passar dos anos. Também acho que o tipo Rimbaud vai eliminar o tipo Hamlet e o tipo Fausto. A tendência é para uma cisão mais profunda. Até que o velho mundo desapareça por completo, o indivíduo 'anormal' tende a cada vez mais se tornar regra. O novo homem só se descobrirá quando terminar o conflito entre a coletividade e o indivíduo. Aí então veremos o tipo humano em sua plenitude e esplendor".

Arthur, o campônio, não quis esperar e foi ser francês na África após percorrer meio mundo. E acima de qualquer reflexão sobre o motivo de ter abandonado a poesia, levemos em consideração que todos nós ocidentais queremos ser alguém na vida, “fazer um pé de meia”. Barthes cita um trecho de uma carta em que o Rimbaud mercador de armas, de seus versos disse serem “criancices absurdas e de mal gosto”. Geraldo Holanda Cavalcanti em seu A Herança de Apolo, diz sobre o mesmo trecho que “trezentos anos antes de Rimbaud, Cervantes faz Dom Quixote dizer, entre outras mui sensatas considerações sobre a poesia, que ela era: 'una alquimia [...] y de tal virtude, que quien la sabe tratar la volverá em oro puríssimo'".

O importante é ler a obra de Rimbaud. Sua poesia é tanto passível de teses acadêmicas como da leitura prática da realidade metamorfoseada constantemente em mutação.

Transcrevo um dos 42 poemas em prosa de ILUMINURAS, que li há alguns dias em um quarto de hotel na esquina da Rua da Consolação com Avenida Paulista, nossa Londres, após ver um pai, já tarde da noite, aquecendo um bebê desfalecido sob a marquise de uma loja de cinco andares (provavelmente a mais importante da rede no Brasil), envoltos em seus cobertores e sacos plásticos que pareciam ser seus pertences, mais os da mãe, que deve ter ido buscar ajuda ou dinheiro:
CIDADE
Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole considerada moderna porque todo estilo conhecido foi excluído das mobílias e do exterior das casas bom como do plano da cidade. Aqui você não encontrará o menor sinal de nenhum monumento de superstição. A moral e a língua estão reduzidas às expressões mais simples, enfim! Estes milhões de pessoas que nem tem necessidade de se conhecer levam a educação, o trabalho e a velhice de um modo tão igual que sua expectativa de vida é muitas vezes mais curta do que uma estatística louca encontrou para os povos do continente. Assim como, de minha janela, vejo espectros novos rolando pela espessa e eterna fumaça de carvão, – nossa sombra dos bosques, nossa noite de verão! – as Erínias novas, na porta da cabana que é minha pátria e meu coração, já que tudo aqui parece isto, – Morte sem lágrimas, nossa filha ativa e serva, um Amor desesperado, e um Crime bonito gemendo na lama da rua.
No dia seguinte, ainda bem cedo, voltei lá com algumas frutas, mas não havia mais sinal da família, na limpa e plana calçada da Avenida, sob o vermelho e branco amanhecer espalmado sobre a CIDADE.

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