05 agosto 2015

Modo de leitura

Recentemente, durante a leitura de O ano da morte de Ricardo Reis, do José Saramago, me vi não apenas prestando atenção na maneira como o autor faz uso da palavra dentro da narrativa, como meio de contar alguma coisa, mas em todo o ritmo do texto.

Isso fez com que eu percebesse que, embora sendo uma narrativa, ela tinha um compromisso outro, além do de contar a história proposta, que era o uso da linguagem também como sensação, sentido. Algo que poderemos considerar poético.

As descrições não serviam tão somente para criar as imagens mentais do narrado, mas o de criar o clima, a ambientação, por meio delas, do desdobramentos dos fonemas, da pronúncia de cada sílaba e organização sintática. Aliás, tentem ler Saramago com a prosódia portuguesa, principalmente com esse texto e vocês verão como muito da "sintaxe difícil" se perde. Isso porque a prosódia (o ritmo da fala) está ali, de um modo até um tanto dramático (de teatro).

E é aí, que esse tipo de texto acaba tendo um outro ritmo de leitura. Algo muito próprio e particular. Ele tem um enredo e tem um “final” para o qual caminhamos, mas isso é tão importante quanto o sentir, quanto o desdobrar da palavra em nossa boca.

Em outros livros, o que se destaca ao lado do que há para ser contado, são as ideias, as reflexões políticas, filosóficas que elas suscitam, como é o caso de distopias como Admirável mundo novo ou Fahrenheit 451, em que o questionar é de extrema importância para o desenvolvimento de uma empatia com o narrado.

Há aqueles outros, ainda, que nos prendem mais pelo ritmo acelerado, como se estivéssemos em um daqueles filmes de ação, cheios de tiro, porrada e bomba, saca?

Todo livro tem essas características em maior ou menor grau. O que devemos ter em mente é que, compreendendo o livro que temos em mãos, qual a sua principal característica enquanto escrita que vai além do enredo, e sim como algo que apresenta um modo específico de contar o que há pra ser contado, e que, portanto deve ser aproveitado de uma maneira também muito particular.

Saber respeitar o ritmo do texto é poder tirar dele o que ele pode lhe oferecer e melhor, pois assim evita-se, que se caia no desagrado com o que é lido, conferindo ao livro a pecha de chato. Bom, às vezes, ele pode ser mesmo chato, mas que seja por outros motivos eu não o de não compreender as intenções da linguagem, de seu uso.

As classificações de subgêneros literários ajudam bastante a decifrar o trato da linguagem, a autoria, quando de um autor mais conhecido e com certo material publicado, também é um caminho para descobrir isso. Todavia, nem sempre garantem 100% de certeza no que se refere a isso.


Por isso que o hábito de ler coisas diferentes é importante (também).Ele nos faz entrar em contato com possibilidades outras de escrita de um mesmo gênero literário (que é o que estamos discutindo nesse texto), algo que mistura trajetória literária e de vida do autor, sua percepção da linguagem, sua ação sobre a linguagem e seu estilo, que imbrica em nós, mostrando quem somos enquanto sujeitos de/na linguagem. E, claro, gostar de bem mais coisas.

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