24 agosto 2015

Beleza Perdida, Amy Harmon

Beleza perdida é a história de uma cidadezinha onde cinco jovens vão para a guerra e apenas um retorna. É uma história sobre perdas – perda coletiva, perda individual, perda da beleza, perda de vidas, perda de identidade, mas também ganhos incalculáveis. É um conto sobre o amor inabalável de uma garota por um guerreiro ferido.

Quando recebi Beleza Perdida (Verus editora) cometi um erro que quase todo mundo já cometeu: Julguei o livro pela capa! Mas antes de jogarem as pedrinhas digo o motivo, abaixo do título está escrito: “Depois do fim, somente um amor inabalável pode nos ajudar a recomeçar” achei piegas, dramático demais. Julguei logo como uma dessas narrativas que nos distraem um pouquinho e que logo queremos abandonar. Maaaas para minha grata surpresa fui laçada por essa história.

A narrativa, em terceira pessoa, gira em torno de Fern e Ambrose, apesar de também incluir Bailey, primo da protagonista, como um dos personagens centrais. O enredo parece ser fiel aos romances que trazem a menina feia e inteligente, que se apaixona pelo capitão do time lindo e superficial, mas que ao fim torna-se amável. Entretanto, a autora já nos traz outra perspectiva: já no início o protagonista (lindo) se revela inteligente e sensível.

Fern, Ambrose e Bailey estudam na mesma escola em uma pequena cidade americana. Ambrose luta no time da escola, Fern sonha em ser escritora, seus manuscritos são praticamente um segredo, já que apenas  Bailey,  que também é seu melhor amigo, sabe das ambições da garota. Ele tem distrofia muscular, doença que é abordado de maneira forte e doce no livro, pois a cativante personalidade de Bailey não faz de sua condição um fardo para ele ou para as pessoas que o ajudam, em especial Fern que está sempre por perto.

Assim, a história segue sem muitas tensões. Até que, após o onze de setembro, a ambientação da narrativa nesse período deixou o drama dos personagens ainda mais significante Ambrose, insatisfeito com a cobrança de futuro lutador decide alistar-se para ir ao Iraque e convence os amigos, que fazem parte do time de luta da escola, a acompanha-lo, fato que acarretará grande culpa ao personagem já que ele acaba perdendo os quatro amigos e volta sozinho à cidade.

No retorno de Ambrose há uma inversão de papéis na narrativa, pois o lutador já não conta mais com a bela aparência, e a pequena Fern transformou-se uma jovem bonita. A aproximação deles é lenta, um ponto alto do romance, momento em que há passagens e diálogos muito sensíveis que apresentam lições sobre a aparência e a essência das pessoas.

Durante toda a narrativa a infância dos personagens ou mesmo os momentos antes do desenlace da história são entremeados em muitos flashbacks. Outro aspecto que chama atenção são os títulos dos capítulos sempre no infinitivo, detalhe que acaba por revelar fatos que estão mais que interligados na narrativa, são verdadeiras surpresas.

Amy também inclui de forma aprazível o diálogo com clássicos; além de o romance propor uma releitura de a Bela e a fera, há referências ao  O Mágico de Oz, Hamlet e alguns textos bíblicos. Em sua releitura, a autora acerta ao usar o mote do conto, pois no romance, assim como no conto, a dualidade dos personagens forma uma harmonia de contrários, equilíbrio gerado pelo amor de Fern e Ambrose.
“ Alguma vez vocês já olharam para uma pintura por tanto tempo que as cores borraram e vocês não conseguiram mais saber o que estavam olhando? Sem contorno, sem rosto, sem forma, apenas cores e espirais de tinta? Acho que as pessoas são assim. Quando a gente para de ver cicatrizes de acne, o furinho no queixo. Essas coisas começam a se confundir, e de repente você vê as cores, a vida dentro da casca, e a beleza assume um significado totalmente novo.” Pág. 233.

No mais, o romance é previsível. Porém, o fato de sabermos exatamente o que vai acontecer deixa a forma que Amy trabalhou para nos contar isso ainda mais interessante. Visto que, cria-se um envolvimento do leitor com os personagens, pois a personalidade de cada um vai se estruturando no decorrer dos intensos diálogos e à medida que eles (os personagens) se conhecem e aproximam-se, o leitor também entra nessa relação, que ao fim do livro parece não se dissolver.

Curiosamente, o que julguei sobre a obra ao ver a capa, acabou sendo uma metáfora também para o próprio livro, uma vez que, o conteúdo me fez lembrar como a aparência pode comprometer nosso julgamento. Há livros que não terminam; escondem-se dentro de nós. Beleza Perdida, sem dúvida ficará guardado. Uma história emocionalmente irresistível e edificante; Fern, Ambrose e Bailey permanecerão muito tempo presentes em minha memória.




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