22 julho 2015

Representatividade: Os autores da Literatura Africana

Nos últimos tempos muito se tem dito sobre representatividade, ainda mais no campo político. Sobre a postura discursiva e ideológica de nossos representantes. Questionar a representatividade é um caminho que me parece legítimo para o exercício da democracia e do desenvolvimento do senso crítico.

Mia Couto. Eduardo Agualusa. J. M. Coetzee. E muitos outros.

O que, principalmente, esses três escritores teriam a ver com questões de representatividade?

Todos eles são escritores africanos, independente de sua literatura ser ambientada ou não na África, de tratar ou não de questões ligadas aos africanos. São escritores africanos por uma simples questão de origem.

Mia Couto é de Moçambique. Eduardo Agualusa é de Angola. J. M. Coetzee é da África do Sul.

Quando se fala em literatura africana, atualmente, esses são alguns dos principais nomes evocados, sendo os dois primeiros com maior destaque. Mas, que África a pessoa desses escritores, todos, homens e brancos representam? O que é evidenciado, para além da qualidade literária de seus escritos, no fato deles serem expoentes de uma literatura de determinado localidade?

Ninguém parece questionar eles serem o que são, vindos de lugares em que a maioria é negra. Em que o lugar de origem foi durante muito tempo colonizado por europeus, em que mecanismos políticos moldaram uma sociedade em que a população negra tinha (e ainda continua tendo) oportunidades roubadas.

Mia Couto revela uma África com linguagem própria e poética, falando das pessoas e de suas vivências. Eduardo Agualusa também fala de uma África. Dos livros de Coetzee que li, há um anglicismo evidente. Não consigo perceber nenhuma filiação com a sua origem.

Onde estão, no que se refere à exposição literária internacional, os escritores africanos, que não só falam de seu lugar de origem, mas que representam no seu corpo e nas suas experiências tudo aquilo que dizem e de quem dizem?

Chimamanda Ngozi Adichie é a única que no momento me vem à mente. Autora de Americanah, ela fala da Nigéria, dos percalços que a personagem enfrenta tendo que sair do seu país em busca de oportunidades que não tem, fala das diferenças culturais entre os próprios negros, vindos de lugares diferentes e morando nos EUA, mas também fala dos Nigerianos. De como, no seu retorno, ela percebe as diferenças culturais e o modo como as coisas mudaram no decorrer dos anos. Uma literatura que não busca o exotismo, tema aliás abordado em uma das palestras presentes no livro Elizabeth Costelo, de Coetzee. Nem mesmo Ondjaki, com toda a lusofonia angolana está mais para branco, do que para escritor negro.

Questionar a representatividade de quem escreve e sobre quem é escrito, me parece ser uma questão para entendermos não só os bastidores do meio literário e de sua produção dele, mas também os mecanismos sociais que fazem com que eles se deem da forma que se dão.

Por exemplo, Marie Ndiaye, é uma escritora francesa, que a despeito do livro A diaba e sua filha, não me lembro de ter publicado alguma outra que lembrasse alguma tradição africana. No entanto, por ser negra e filha de um senegalês, foi durante um tempo tida como uma escritora franco-senegalesa. Mas de onde vem o Senegal dela, em sua literatura?

Ela própria questionou essa questão da origem, da geografia que classifica e categoriza autores e literatura, ainda mais que, escrevendo sobre a França, ela o faz da Alemanha, lugar onde fixou residência alguns anos atrás.

Será que a mudança de lugar influenciaria numa mudança de lugar literário? Ela deixaria de representar a literatura francesa simplesmente por escrever da Alemanha? Por ter um pai senegalês? Por não escrever mais em francês, caso ela assim o quisesse?

O que será que aconteceria com Milton Hatoum, que não mais morando em Manaus, continua produzindo uma literatura de viés amazônico?

Todos esses questionamentos me levam a um questionamento ainda maior, quais os mecanismos que estabelecem o lugar do autor na representatividade?

É do seu lugar de origem? Da língua que usa em sua escrita? Sobre o lugar que escreve? Seu lugar social? Isso é realmente importante para a produção literária?

Não, isso não é importante para a produção literária, mas questionar isso leva a compreensão, como disse antes, dos mecanismos em que a literatura se baseia na escolha de autores e textos.

Temos autores brilhantes, mas que por conta de mecanismos que estão fora do ambiente literário, acabam tendo mais destaques. Assim, que, por isso, temos Mia Couto, Eduardo Agualusa como alguns dos principais representantes de uma literatura africana, no cenário internacional, seguido de um Coetzee, filiado mais a uma tradição anglófona.

Não os questiono no que se refere a serem representantes e de produzirem textos de qualidade, e sim o fato de não haver (ao que parece) escritores que, sendo africanos, fogem de um padrão que evidencia um histórico que devia estar no passado, que é o de privilegiar homens brancos.


Porque a representatividade está para além de construção de enredos nos quais personagens negras com seus hábitos, costumes e linguagem apareçam, mas também com negros produzindo para negros e para brancos. Sendo assim, o que fica para mim é a necessidade de se abrir mais espaços no ambiente literário para sujeitos que estejam fora desse padrão de uma minoria falando por uma maioria.

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