30 julho 2015

O (des)conhecido Buk(owski) de As pessoas parecem flores finalmente

Bukowski e o gatinho: nem tanta acidez assim!
Fonte: Google imagens
Por Isabelle Pantoja

Sempre me senti uma leitora solitária de Bukowski, pois, quando escuto sobre ele dificilmente os comentários vão além de: “ácido, obsceno, o resquício da geração beat de Jack Kerouac” (Bukowski não aceitava ser incluso na turminha Beat).

Pois bem, não há como ignorar a peculiaridade que fez o poeta ser reconhecido dessa forma. Porém, como leitora não só dos contos e romances de Bukowski, mas de sua poesia, optei por tirar essa “lente” do lugar comum e da opinião massiva que parece ver apenas esse lado do velho escritor.

Num primeiro encontro com Bukowski parece mais fácil permanecer no lugar seguro, concordando com o que a maioria diz de sua obra, contudo, seguindo essa linha deixa-se muita coisa de lado e, no caso dele, isso não só compromete a leitura como acaba fazendo o leitor ir com uma “lente” pronta para texto, confirmando uma visão preconceituosa: o autor que usa um mundo fixo de pano de fundo (bares, corridas, prostitutas...), com uma linguagem que (apenas) repete a simplicidade do cotidiano, ponto. Ou seja, tudo o que corresponde exatamente àquilo que entendo como lugar comum: O velho Buk apenas, ácido, visceral, ríspido.

Claro que a agressividade em sua escrita e seu estilo “sujo” (palavrões e mais palavrões, tudo que Literatura limpinha renega), o consagrou como escritor de persona fria e insensível. Parte dessa fama deve-se graças a procedimentos generalizantes como todos aqueles compartilhamentos (facebook mandou um abraço!) de frases descontextualizadas, que parecem não levar em consideração as correlações, as fontes de emoção e principalmente as relações humanas presentes nas suas obras.

No Brasil, Bukowski tornou-se conhecido por seus livros de contos e romances, já a sua poesia não ocupa um lugar de destaque - O amor é um cão dos diabos (2007) é um dos poucos publicados aqui - o que sempre julguei lamentável, até o lançamento de As pessoas parecem flores finalmente (2015) pela editora L&PM, que traz poemas inéditos com tradução do poeta Claudio Willer, e que enfim me deu a oportunidade de falar da poética que julgo preterida. 

Na obra, o poeta trata de forma simples todo e qualquer tema do cotidiano como matéria poética, marca presente nos versos que coloca tudo em primeiro plano. Cabe ao leitor ter sensibilidade em perceber que na forma (aparentemente) rude e fluente do texto, há a sutil forma de falar de temas como esperança e amor, que são eclipsadas.

Como amostra dessa perspectiva, cito alguns poemas: (calma leitor, prometo que isso não será uma análise!) em “Aceitação”, há sutilezas que chamam atenção, como certas passagens que são praticamente trechos do romance Misto Quente (2009). Neste, é narrado um episódio vivido pelo personagem Chinaski, em que ao retornar à casa que mora com os pais, encontra os seus pertences jogados na grama e sua mãe histérica escondida num arbusto, pedindo que vá embora, uma vez que o pai encontrou seus contos. No romance encontramos o conflito difícil, aparentemente sem saída, já no poema a conflituosa relação encontra um momento sereno:
[...]uma noite ele entrousegurandoum dos meus contos(que eu nunca lhe havia
mostrado)e disse: “este é um grande conto!”e eu disse, “está bem”ele o devolveu para mim eu o li: [...] de algum modoa história fazia algum
sentido para eleapesar de quequando escrevieu não tinha ideiado que
estava escrevendo.Então eu disse,“está bem, velho, você podeficar com isso”.e ele a pegoue saiue fechou a porta eeu acho que issofoi o mais pertoa que chegamos. (p.30-31)

Outro poema que faz jus à sensibilidade do poeta é “Os anos 1930”, nele, a presença de uma recordação intimista, em que, assim como eu, muitos leitores pensariam poder ter escrito esses versos.
[...] lembro quando crianças costumavam olhar a chuva

por horas e
brigavam interminavelmente por um filhote
de rato; e [...]
e quando uma barra de sorvete em cada dez tinha dentro
        um bilhete
de sorteio;  e quando por 3 centavos dava para comprar
        doces o bastante
para fazê-lo passar mal
ou durar toda uma
tarde; e quando as pessoas da vizinhança criavam
galinhas em seus quintais;[...]
[...]        e cada dia era claro e cada momento
          era
 cheio de promessas. (p.23)
     
Esse terreno memorialista que o poema toca, mostra a reflexão sobre o tempo e comprova que não só corridas de cavalos, prostitutas, e porres formam o mote da poesia de Bukowski. E digo mais; há um espaço para o lirismo, que, aparentemente, é pouco ou nunca divulgado, faceta que ganha espaço nas inúmeras situações em que o dirty old man escreveu sobre as mulheres, como versos de brilho roxo: “você iria/ gostar de passar seu coração para ela/ e dizer/ toque-o/ mas depois/ devolva-o[...]” (p.55).

Por fim, depois de alguns trechos e versos, o que pretendo lembra-los é que há muitas maneiras de ler um autor, as críticas, os comentários e sugestões sempre serão bem-vindos, mas o ideal é partirmos para leitura limpos, sem pré- julgamentos.

Em Bukowski, quando isso feito, esse universo literário se expande ao admitirmos a existência um íntimo mais sensível e humano. Nas palavras dele um recado: “e/ o livro estará parado em uma/ prateleira de estante/ esperando por você/ muito tempo depois de eu ter/ partido./ pense nisto:/ em um sentido eu estarei falando outra vez/ só pra você./ lembre-se disto:/ a página para qual você está olhando/ agora,/ certa vez eu datilografei as palavras/ com cuidado/ pensando em você/ sob uma luz/ amarela/ com o rádio/ ligado [...]”

 Acredito que esse lado do poeta exige muito mais do leitor, porém, dá-lhe muito mais, pois é só diante de uma leitura sem lentes que a vista sobre o autor se preenche. As pessoas parecem flores finalmente pode ser mais que um livro de poemas, já que: um verdadeiro desmistificador, por trazer em um único volume o velho franco, claro e poético em sua melancolia. 

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