29 julho 2015

Literatura como entretenimento?

Muitos blogs e vlogs que eu vejo por aí, ao falarem de livros o fazem de modo bastante geral, o que implica em fazer muitas vezes um resumo do enredo e acrescentar aqui e ali impressões bastante subjetivas sobre o que acharam dele, bem como de sua escrita, sem exemplificar com passagens do texto o que disseram.

Sem querer ser chato, mas já sendo. Isso não é resenha.

Resenha, você colocando o “crítica” ou não, implica em argumentar sobre as impressões, ou seja, dizer porque gosta ou não gosta de maneira coerente e exemplificada, minimamente. Por exemplo, dizer que achou a leitura do livro monótona é uma impressão, mas não tem nada de “crítico” ou “analítico” no comentário.

Agora, dizer isso e acrescentar que se dá por conta da ambientação, por exemplo, do romance em uma cidade turística em baixa temporada, o que nos leva a situação da personagem viver horas sem grandes novidades, sem ver gente e sem ter o que fazer, o que a leva, nesse clima frio e úmido da baixa temporada, a vagar pela orla da cidade relembrando fatos de sua vida anterior... Bom, isso é analítico e se torna crítico quando percebemos se isso funciona ou não na proposta do romance, como algo acabado.

Isso é o que a maioria não tem. Percebe que de um resumo rápido sobre o que poderia ser o romance eu consegui analisar a escrita, por meio da sensação que ela me traz e assim tecer um crítica sobre se isso é coerente ou não com a proposta?

E olha que estamos apenas no âmbito do texto, quando poderíamos trabalhar, se assim quiséssemos e nos detivéssemos, as questões extrínsecas suscitadas, fossem elas sociais, filosóficas, políticas, sexuais...

Pensar os textos literários desse jeito não é uma coisa só de acadêmicos ou só pra livros ditos clássicos ou de alta literatura, dá pra fazer com qualquer texto, pois todo texto é produção discursiva e ideológica de um sujeito social (cultural).

Nesse aspecto, me pergunto por que literatura ou mesmo o cinema, em blogs por aí, são tratados de maneira tão superficial, se restringindo a adjetivos de divertidos, com um elenco de corpos bonitos, linguagem fluida (sem saber o porquê da fluidez, de como ela se dá). Dizendo que traz uma discussão importante, mas sem conseguir desenvolver a discussão ou pelo menos mostrar porque ela é importante.

O mais estranho de tudo, pra mim, é que esses comentários são os produtos mais consumidos e os mais requeridos nos diversos canais literários, mesmo os que se querem colocar como especializados.
Ora, se conseguimos debater novelas, programas de culinária e até divas da música pop, por que relegamos a literatura o papel do entretenimento? Por que não ir um pouco além disso? Além das sinopses, resumos e gostos pessoais. Não que isso deva ser abandonado, mas consumir textos literários não é apenas consumir textos ficionais que "nos tiram da realidade".

Ceci n’est pas un livre!

Você consome escolhas que o mercado faz de coisas que um monte de gente tem consumido. Você consome visões de mundo, ideologias, discursos. Você promove determinadas pessoas e empresas. Você ajuda a estabelecer um status quo.

Quando você não entende isso, você passa a ser aquela engrenagem que só gira e nem sabe o por quê. Continua reproduzindo práticas. Não que haja algum problema em reproduzir, esse nem é tanto o ponto. A questão é reproduzir algo que nem você mesmo percebe que está reproduzindo e que, talvez, só talvez, seja algo com a qual você nem mesmo concorda. Ficar no automático ou achar que há problemas maiores, questões maiores é sempre temeroso. O pulo do gato está nos detalhes, que julgamos serem besteiras ou inofensivos.


E aí, pensar os textos que lemos um pouco mais profundamente não implica em ser chato, muito pelo contrário. Para aqueles que insistem na ideia de que ler é viajar ou mergulhar em coisas novas, descobrir essas possibilidades dentro do texto o torna ainda uma possibilidade muito mais rica, sem deixar de lado a diversão.

No mais, entendo que algumas vezes é difícil encontrar maneiras de falar sobre o livro lido, todavia tentar sempre é algo que vai nos aprimorando a conseguir realizar essa tarefa. Porém, ao conseguir realizá-la e mesmo consumir esse produto nos leva a um outro patamar de compreensão do mundo. Tantas coisas nos parecem tão normais enquanto assuntos discutíveis, porque a literatura, na maioria dos canais, tem que se resignar ao de entretenimento? Por que ela não pode ser algo tão bem discutido como racismo, sociologia, preconceito e sei lá mais o quê? 

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