13 julho 2015

Fahrenheit 451, Ray Bradbury

Fahrenheit 451 é um dos clássicos da distopia e conta como o Bombeiro Montag passa questionar o sistema no qual se encontra inserido. No mundo de Montag, bombeiros têm a função de iniciar incêndios. Eles incendeiam livros, já que nessa realidade ser um leitor e, “consequentemente, um pensador (questionador)” é considerado crime.

Nesse mundo as pessoas são instigadas a realizarem coisas sem pensar nelas. Está angustiado? Saia dirigindo acima do limite da velocidade. Passe o dia envolvido entre barulhos. Pessoas falando, falando, falando sem dizerem nada com o que falam. Um mundo de superfície, no qual nem mesmo a guerra parece ter impacto na vida das pessoas.

Como a humanidade chegou até este ponto? Uma profusão de informação que foi se transformando em fatos e dados, cada vez atualizados mais rápido. A superficialização do conhecimento, tornando algo como livros algo desnecessário, já que o sentir não condizia mais com a realidade, veloz e insensível.

As passagens em que isso é explicado no texto são chocantes e não deixam de fazer sentido nos dias de hoje. Principalmente nos dias de hoje, com o advento da internet e a possibilidade de interação em tempo real, por meio da rede.

Confesso que, de certo modo, compreendo o sentimento e a preocupação de Ray Bradbury tem em relação ao caminho que temos seguido na relação com a informação e com os textos. Livros cada vez de mais fácil assimilação de conteúdo e de enredo. Fast books. Resumos de resumos. Retaliação de textos tidos como essenciais. Simplificação de conceitos. Uma educação cada vez mais superficial, que não transforma os sujeitos em cidadãos críticos.

É, principalmente, com essa distopia que passei a compreender que no distópico, os governos não são de todo autoritários. De algum modo, eles começam como um reflexo de uma sociedade. Há a permissividade social, que abre as brechas para que ele possa se instalar. Um sentimento que, talvez não seja universal, encontra a complacência dos que discordam, esmagando ainda mais as possibilidades dos que lutam.

Falando em lutas, há uma visão bem interessante sobre as minorias. Cada vez mais minorias surgem. Minorias de minorias e todas elas brigando por espaço e por representatividade. Isso é de certa maneira algo que contribui para a sociedade em que Montag vive, que busca acabar com as diferenças, pois elas surgem da noção de que há diferenças entre as pessoas e isso não seria algo desejável, pois desarranja a harmonia e a ordem das coisas.

Sobre esse assunto, Bradbury, na edição da Globo de Bolso, volta a tratar na Coda, sobre até que ponto poderia os de fora intervir na criação estética do escritor. Um tema interessante e bastante polêmico, ainda mais nos dias de hoje, se pensarmos principalmente em nossa produção televisiva, no caso das novelas, em que a pressão social faz com que os autores mudem o rumo da vida das personagens, tudo por causa da busca pela audiência.

E, embora todos esses pontos sejam bastante profícuos, no final, o que mais me chamou atenção no romance, foi o aspecto da memória que perpassa todo ele. Desde o encontro com Montag com Clarisse até o final, com os homens livros.

No início, Monatg tenta relembrar algo que aconteceu e começou a mudar o modo como ele percebe o mundo ao seu redor e que vai sendo redescoberto com o encontro com a menina Clarisse, atingindo o seu ápice com o incêndio que “dá” errado.

Depois, chegamos à parte em que a memória faz um retorno à prática de memorização. Da construção de homens-livros, ou seja, aqueles que têm a função de memorizar um enredo, uma obra ou parte dela e, assim, garantir a sobrevivência do conhecimento da humanidade.

Essa prática de memorização do conhecimento da comunidade é algo muito comum em sociedades em que a escrita não existia ou não tinha um grande valor, sendo os homens-livros pessoas de enorme respeitabilidade. Tinham status social. Deste modo, com a “extinção”, dos livros, talvez um dos grandes ápices da cultura letrada, faz com que o retorno para “tradição oral”, mesmo que em uma pretensa oralidade aconteça.

E esse retorno da memória e da oralidade, mesmo que reformulada, mês faz acreditar que, o problema no mundo de Montag não está necessariamente no fato dos objetos livros serem proibidos, e sim, como mesmo evidencia algumas vezes o professor Faber, no que eles podem proporcionar, que é o tempo para a reflexão, para a contemplação, para o silêncio, para o prazer e o exercício de escuta e conversa, coisas que, assim como os livros, desapareceram da vida das pessoas. Coisas que Clarisse buscava e mostrava para Montag em cada encontro e em cada conversa.

Por fim, o livro é realmente um soco no estômago em certas passagens, como as já citadas aqui, sobre o que levou à proibição dos livros e da leitura, principalmente. No entanto, para mim, até chegar ao ponto em que considerei demorou um bocado. Pelo menos umas 70 páginas de muita paciência e persistência, mas depois, fluiu que foi uma beleza.

E esse foi o segundo livro da #MLI2015. Gostou do texto? Sim? Não? Comenta aí. Curta a página do Folhetim no FB, se inscreva no canal do youtube e siga-nos no twitter para não perder nenhuma novidade!

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