01 junho 2015

Sono, Haruki Murakami

Imagem divulgação / Editora Objetiva
O que é viver? O que é estar acordado? Pode-se viver imerso em sono, como se fosse um sonâmbulo? Pode-se viver sem dormir?

Essas são algumas das questões que constroem o enredo de Sono, um conto do escritor japonês Haruki Murakami, ganhador de prêmios como o Franz Kafka e o Yomiuri e mais conhecido pela trilogia 1Q84.

Publicado pelo selo Alfaguara da Editora Objetiva, em março desse ano, o conto de Murakami, traduzido por Lica Hashimoto e ilustrado de Kat Menshik, vem em uma bela edição em capa dura e 114 páginas em papel couchè.

Narrado em primeira pessoa, temos uma mulher casada e mãe de um filho que não dorme já há dezessetes noites e, ainda assim, não padece de nenhum mal aparente. Ela apenas não dorme.

A situação lhe faz rememorar uma situação que vivera anos antes, em que passou por uma insônia, mas que, ao contrário dessa, lhe dava a sensação constante de cansaço e sonambulismo. Essa não, lhe parece que está mais desperta e viva, como se estivesse percebendo as engrenagens da vida cotidiana e toda sua automaticidade. É como se ela estivesse na Matrix.

Tudo acontece depois de uma experiência um tanto assustadora na hora de dormir, em que naquele estágio do sono em que, quando acordamos, o cérebro paralisa os movimentos do corpo e só a consciência de estar acordado se faz presente, um velho rega o seu pé. Desde então, não dorme mais.
É então que ela vai começando a reparar em coisas de sua vida que antes lhe pareciam normais, de tão naturalizadas que estavam e por isso passavam despercebidas.

É deste modo que ela percebe que não ama o marido, que nem mesmo bonito o acha. Em como sua vida é automática e insípida. A faz lembrar-se das coisas que fazia e do que lhe dava prazer.Comer chocolate. Tomar bebidas alcoólicas. Ler. Coisas que ela introduz de novo em sua vida. Aqui esse tempo é gasto com obras russas, primeiro com o intuito de fazer com o que o sono chegue, já que a literatura russa é marcada por extensas descrições. São grandes tomos narrativos. O primeiro a ser tirado da estante é Anna Karenina, e Tolstói se torna o primeiro de uma lista de escritores que se seguem, como Dostoievski e Tchekhov.

Vamos compreendendo que, a vida automática que ela acaba seguindo como um script socialmente aceito vai lhe privando das coisas prazerosas e, como anestesiada, vai vivendo uma vida de sonâmbulo.

Assim, perder o sono, torna-se uma experiência que literalmente a acorda da vida que ela vivia, como uma recusa que se materializa fisicamente. Uma recusa do inconsciente de se afundar numa vida vista pela janela embaçada do cotidiano.


Porém, quais os perigos que estar acordados reservam? Até onde estar acordado é ter lucidez e quando é que a lucidez torna-se loucura?

Porque, ter a familiaridade roubada não nos priva do processo de naturalização das coisas, apenas nos lança em outro processo em que as coisas vão se tornando hábitos que nos distinguem de um determinado grupo. É uma inocência que é roubada para nos jogar em outro tipo de inocência, a de que vemos a vida do modo como ela realmente é.

E logo o confronto entre essas duas realidades se torna inevitável.

O conto de Murakami nos confronta sobre como levamos nossas vidas e de como a nossa percepção da realidade é apenas uma perspectiva, que pode ser alterada por qualquer evento, brincando com o que seria "a vida de verdade" e com o que é "estar acordado" para isso.

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Um comentário:

  1. Dan, amei esse texto! Acho que, dos seus textos que li, é o que mais gostei!
    Esse tema do sono me é muito caro (dormir é o que há de bom na vida!!!), e o sono é um mistério até para os estudiosos. Para quê ele serve, por que temos tanta necessidade de dormir, etc.
    Me interessou muito o livro! Essa obra inteira é um conto?
    Beijos!
    Nati

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