25 junho 2015

O Imortal e a Morte

“em tudo o rito se cumpra”
(I-JUCA PIRAMA, Gonçalves Dias)


A decisão da Academia Brasileira de Letras de não premiar com 50 mil reais nenhum livro de poesia publicado em 2014 é a notícia da semana no meio editorial.

Atualmente os imortais Alberto da Costa e Silva, Cleonice Berardinelli e Ferreira Gullar (vencedores do Prêmio Jabuti, a Medalha da Ordem do Desassossego da Casa Fernando Pessoa e o Prêmio Camões, respectivamente) são os responsáveis pelo parecer, que será submetido ao plenário da ABL, e divulgado oficialmente até esta sexta-feira, 26 de junho de 2015.

Eucanaã Ferraz, professor da UFRJ, ensaísta e poeta (premiado pela fundação Biblioteca Nacional com o prêmio Alphonsus Guimarães em 2002) com um livro publicado esse ano, disse que se deve aguardar uma justificativa da comissão enumerada acima, pois o prêmio é entregue todo ano, e, depois de defender a robusta produção poética brasileira atual, tratou de enumerar uma série de colegas que poderiam ser premiados.

Ao ler, recentemente (durante a feira do livro), a crônica “um murro no muro”, prefácio de Tristão de Ataíde para uma coletânea de “melhores poemas” de Ferreira Gullar, deparei-me com o seguinte: “Nada de mais saboroso, para um leitor ávido de poesia, e de mais grato para um crítico, mesmo aposentado, do que encontrar contida em um só frasco, toda uma vida da mais autêntica paixão literária e social”.

Paixão literária é sem dúvida o que encontramos na trajetória dos três acadêmicos da comissão julgadora do prêmio de poesia da ABL de 2015. Adalberto da Costa e Silva, além de diplomata é um historiador e africanólogo importante, o que influencia (ou flui de fato) em seus ensaios e poesia. Cleonice Berardinelli foi a segunda pessoa no mundo a publicar um trabalho sobre Fernando Pessoa (paixão à primeira vista), de quem aos 98 anos é especialista máxima, talvez, assim como de Camões, apresentando, por ambos, entusiasmo de fã número um. 

Ferreira Gullar. Google imagens
Ferreira Gullar, poeta, ensaísta, cronista, tradutor, jornalista e artista plástico é o imortal mais recente, eleito há menos de um ano, e o que dos três podemos atribuir um maior grau de paixão social, além de literária.

Poeta não acadêmico, Gullar tomou posse na Academia Brasileira de Letras em dezembro de 2014, como pede a tradição, saudando seus confrades: “Sr. Presidente da Academia Brasileira de Letras Geraldo de Hollanda Cavalcanti; Sr. Acadêmico José Sarney, decano da Academia Brasileira de Letras...”; depois aos acadêmicos integrantes da mesa, e mais uma vez “...senhores acadêmicos”, para então saudar sua esposa, seus familiares, amigos e demais presentes. Enfim imortal.   

Uma trajetória inimaginável (ao menino maranhense filho de quitandeiro que não tinha livros em casa, e que só conheceu poesia pelas compilações recheadas de Camões, Gonçalves dias e Bilac, comuns em gramáticas escolares à época) percorreria, até dizer em seu discurso de posse na ABL que sua vida se caracteriza “não pelo previsível, mas pelo inesperado”, e que, ao decidir-se pela candidatura, nunca antes aspirada, seguiu a própria regra de “optar pelo imprevisível”. 

Não é de espantar que esse jogo de antíteses, tradição e novidade, o deixe expressamente feliz por aos 84 anos começar uma nova aventura (acadêmica) que por algum rumo inesperado haverá de levá-lo; e pode alguém se espantar que ele espere encontrar o novo naquela casa que é o reduto da tradição, pois, nas palavras do poeta: “como a vida é inventada, em qualquer lugar e em qualquer momento, algo inesperado pode acontecer”. Quem sabe a morte?


O poeta ainda neófito em vidência poética que escreveu aos 21 anos no livro A Luta Corporal,

“o anjo é grave
  agora
  começo a esperar a morte.”

é o mesmo sob o qual estendeu-se  a estrada da poesia moderna, e aos 70, no livro Muitas Vozes disse:

“agora porém
  depois de
  tudo
  sei que
  apenas
  morro

  sem ênfase.”

A tradição e a incerteza da estrada são matérias preferidas pelos poetas desde a tradição homérica, e através de Virgílio, Dante, Cervantes, Camões, Rimbaud. “Ora, essa paixão pessoal de entrega, de total devotamento a uma tarefa, a uma missão, é o que faz das letras verdadeiras um holocausto não uma vaidade” diz Trisão de Ataíde. Moto-contínuo da obra de Gullar.

Poeta radical, Gullar deixa São Luís e o semi-parnasianismo para trás, e no seu livro de estreia no Rio, desintegra a linguagem no poema “rozçeiral”, tiro de largada para o Concretismo dos irmão de Campos,  que ele adere (“com paixão evidente” segundo Tristão de Ataíde) e rapidamente abandona, para lançar a tese basilar do Neo-Concretismo, (teoria do não objeto) com artistas do Rio, e novamente abandonar a vanguarda, agora definitivamente. O exílio e a luta política marcaram as produções do poeta entre os anos 60 e 70, época mais robusta e reconhecida de sua obra, que desemboca em 1975 no Poema Sujo, um épico às avessas, preenchido em suas quase oitenta páginas, não pela glória tradicional nesse tipo de fluxo poético, mas pelas camadas mais baixas da pobreza do nordeste brasileiro. 

Mais uma guinada clara em sua obra ocorre nos ano 80 quando os mortos e a metafísica tomam conta de seu discurso, num crescendo que, no livro mais recente, Em Alguma Parte Alguma, aponta a metalinguagem como rota para o futuro da poesia, disposta no horizonte de luz, matéria escura e silenciosa do vasto espaço que nos cerca ainda inexplorado, numa metáfora para nossas próprias possibilidades humanas, e critica a importância da própria matéria temática em voga, dirigindo-se ao seu gato:

     “Gatinho, confesso
que pouco me importa
           quanto dura uma estrela
Importa-me quanto duras tu,
            querido amigo,
            e esses teus olhos azul-safira

            com que me fitas”

Agora a intermitência da própria morte o acompanha como um duplo imortal:
“Foi-se formando
ao meu lado
           um outro
que é mais Gullar que eu (...)
e pelo país
            flutua
livre da morte
e do morto”
Segundo Leminski em sua crônica “Texto Bastardo”, na construção da arquitetônica de uma obra assim vasta e consistente através dos anos (65 anos de atividade poética ininterrupta até a ABL) o poeta adquire “poderes sinfônicos que só tem paralelos em um Beethovem, um Wagner, um Stravinski (e esse domínio sobre a arte é um domínio sobre a vida)”. É isso mesmo. O poeta rege sua criação como um piloto que por estradas se arrisca em curas sinuosas a mudar de paisagem constantemente.

Estrada percorrida e obra criada, serão necessárias muitas gerações de mestrandos e doutorandos para, manuseando as placas de transito, tentar organizar e explicar o domínio que um Gullar tem sobre a vida:
“pode você calcular quantas toneladas de luz comporta
                    um simples roçar de mãos?
                    ou o doce penetrar
                    na mulher amorosa?
Só disponho de meu corpo
para operar o milagre

esse milagre
que a vida traz
e záz
dissipa às gargalhadas.”

A interrogação, que cria um fremir nos ossos de quem tenta respondê-la, é a mais honesta atitude que um poeta pode ter numa era de informação irrestrita. A pergunta faz vibrar certezas; é promessa de ação; oportunidade máxima de criação pelo receptor; alteridade e esperança.

No mundo aparentemente sem esperanças, dominado pelo politicamente correto pós-moderno, o (meta)poeta faz a pergunta fundamental:
“o osso
  o fóssil
        futura
        peça de museu
        o osso
        este osso
        (a parte de mim
        mais dura
        e que mais dura)
        é a que menos sou eu?”
É que todo poeta diante do caminho que escolheu pergunta a si mesmo: - Poeta bom é poeta morto?

Talvez, não obstante o fato de que Gullar e os outros dois acadêmicos julgadores do prêmio de poesia da ABL de 2015 estejam bem vivos e sejam muito bem premiados literariamente.

Eu me despeço (esperando ansioso pela justificativa da comissão pela não premiação em poesia em 2015) com as palavras do critico Tristão de Ataíde sobre a inexplicável imaterialidade que tange o trabalho com a arte das palavras:

“Quando, em moço, troquei sociologia por literatura, meu primeiro cuidado foi desmentir a famosa frase de Verlaine: tout le rest est littérature. O que é resto em literatura é literatice. Isto é, o que pretende ser literatura, vida vivida integralmente pela palavra, e é apenas veleidade literária ou babados verbais de enfeite e sentimentalismo superficial. Artifício e não Arte. Literatura autêntica é vida revivida, vida ao quadrado. Sentimento de sentimento. Inteligência de inteligência. Verbo do próprio Verbo”.

Poesia é literatura ao quadrado?











Fábio Tadaiesky
Professor de Língua Inglesa, Tradutor e acadêmico de Língua Portuguesa na Universidade Federal do Pará.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ronrone à vontade.