24 junho 2015

O clube dos Anjos, Luís Fernando Veríssimo

Amigos que têm o hábito de se reunirem uma vez por mês, cada encontro na casa de um deles, a fim de jantarem uma comida especial, gourmet, estão morrendo. As mortes não se dão de forma corriqueira, mas sempre depois de cada jantar oferecido, sempre o "anfitrião" e sempre depois de comer o seu prato preferido. Descobrir quem é o autor dos assassinatos? Não, não é preciso.

Desde o início de O clube dos anjos, de Luís Fernando Veríssimo, já sabemos quem está matando. Nós e quem vai morrer, também. Para nós, leitores, isso não é o importante. Para eles, comensais, o importante é a adrenalina, que opera no momento de degustar a sua provável última refeição, que é nada menos que o prato preferido.

A narrativa nos é contada por Daniel e se dá logo depois da morte de um dos companheiros do grupo, intitulado de "Clube do Picadinho", em referência e homenagem aos tempos em que eles, bem mais novos, se reunião no bar do Alberi, para comerem picadinho com farofa de ovo e banana frita. Daniel é o único sobrevivente e nos conta tudo como se, ainda no exato momento em que digitava os acontecimentos narrados, duvidasse do que conta.

A princípio, isso nos causa uma sensação de sobrenaturalidade no narrado, como uma punição divina para o pecado deles, a Gula. Sobrenaturalidade e um quê de sonho, de estória simbolista, como são: O Mandarim, de Eça de Queirós, ou A confissão de Lúcio, de Sá Carneiro. Mas é só impressão mesmo.

Enquanto vamos imaginando, nas 142 páginas do livo, as mortes de cada um dos outros 08 integrantes do Clube do Picadinho, também nos é dado a conhecer um pouco de suas vidas, o que dela fizeram e como se conheceram.

Aliás, os encontros, também me lembraram um pouco o cenário sadiano, em 120 de Sodoma, pelo menos do que já escutei sobre a obra, que é o de um grande salão, no qual homens se reúnem para satisfazer seus vícios e apetites. Sempre eles, sem mais ninguém. Onde "A apreciação [...] exige a destruição do apreciado", como é dito à quarta capa do pequeno volume do elo Ponto de Leitura, da editora Objetiva.

É isso que, aos poucos, vai solucionando o grande mistério: Por que eles estão morrendo?

A leitura é rápida e agradável. Há quem considere o livro sem o humor característico de Veríssimo, mas eu discordo, veementemente. Aqui temos um Veríssimo em plena forma do humor irônico, fino, que vai brincando não só com o pecado o qual lhe é confiado (esse livro faz parte da coleção "Plenos Pecados", de histórias sobre os "pecados capitais"), mas com os entrelaçamentos simbólicos que ele constrói com os outros, como o tesão despertado pela luxuria, ou o egoísmo despertado pela avareza; e mesmo as brincadeiras bíblicas, envolvendo nomes e mesmo práticas e rituais.

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