03 junho 2015

“DESLIGA A TV E VÁ LER UM LIVRO”?

“Desliga a TV e vá ler um livro” é a ideia norteadora e que deu origem a uma campanha da MTv, um tempo atrás, que visava o incentivo e a promoção do hábito de leitura de textos do gênero literário entre os jovens e os nem tão jovens assim. Ainda hoje, esse bordão é repetido, às vezes com algumas variações, substituindo a TV por celular ou redes sociais. Uma ideia totalmente excelente, tendo em vista que, muito se reclama da falta leitores entre os brasileiros.

Entretanto, é necessário fazer algumas considerações acerca essa ideia de leitura.

A necessidade da leitura de textos escritos em nossa sociedade, que é pautada pelo mundo da palavra impressa, dos documentos oficiais e das provas materiais é o caminho de inserção do sujeito nas relações interpessoais e nas relações de poder instituídas. É por isso que vamos para a escola, não para aprender o português, a língua pátria, que aprendemos na interação com outras pessoas, mas para aprender, principalmente, uma modalidade desse português, que está intimamente ligado à escrita.

Assim, não nos basta apenas saber falar, temos que saber ler e escrever, mas isso também não é o suficiente. Temos que saber escrever de determinada forma e ler determinados textos, a fim de que possamos não estar à margem da sociedade letrada.

É por conta disso, desse discurso ideológico sobre a leitura e escrita, que somos levados, por um determinado grupo, a ler os clássicos, que são isso, porque alguns acharam que essas obras e não outras eram dignas de nota. Essas mesmas pessoas inculcaram esse pensamento em outras e assim, a ideia de “obra-prima” perpetuou-se.

Tá, todo esse papo estranho sobre ler e escrever tem o quê a ver com o bordão?

Bom, ele não institui o que é bom ou mal em textos literários, da maneira como os críticos literários impõem. A crítica literária feita por blogueiros e vlogueiros, em muitos casos, se distancia desse tipo de avaliação, já que se aproxima mais do público leitor. Não é a toa que as editoras, já há algum tempo, vem realizando parcerias, pois conseguem compreender que isso é mais que uma estratégia de marketing, é também o termômetro do mercado.

Não, o bordão não parte dessa premissa de instituição da leitura de determinados textos literários em detrimento de outros, muito embora, e o que é até mesmo muito natural, valoriza mais o texto escrito em detrimento de textos produzidos em outros suportes, em alguns casos.

A leitura de textos escritos é sim muito importante, como disse no início deste texto, promover o hábito de leitura é imprescindível para vários aspectos de nossa vida, não apenas o lazer. Inúmeras pesquisas estão aí para nos dizer isso, sendo que, das últimas que eu tive acesso, dão conta de que, dentre os gêneros literários, os que mais desenvolvem a parte cognitiva relacionada à aquisição da linguagem é a poesia.

Mas há outras coisas a serem lidas, e cada um desses outros textos suscita o uso e o aprimoramento de diversas habilidades cognitivas. Há que se levar em consideração que, em um mundo cada vez mais verbo, imagem e som interagem, se confundindo em uma única linguagem, o que torna imprescindível a leitura de outros enunciados.

Assim, não é preciso desligar a TV ou sair do Facebook e se focar nos livros. Não há a necessidade de escolher um, mas sim, e aí entra outra possibilidade de leitura de “Desliga a TV e vá ler um livro”, que é a de dar espaço para outras coisas na sua vida, que não só a TV.

Essa outra perspectiva, de “dar espaço”, também permite outra questão relacionada as coisas lidas, que é a da alienação.

Tornou-se senso comum dizer que a internet e a TV alienam as pessoas, mas livros também podem ser objetos de alienação, tudo depende de como eles são utilizados. A alienação acontece quando sua vida é focada para apenas um aspecto da sua vida, das suas atividades, ela te desconecta de outras coisas do mundo.

Assim, uma pessoa engajada politicamente, que só pensa nas grandes causas mundiais, pode ser um sujeito alienado, que, tão focado que está naquelas grandes causas, que não consegue enxergar e ajudar a sua família e comunidade.

Portanto, não precisa desligar a TV, mas também não deixe de ler um livro ou um jornal ou ver um filme ou sei lá o quê. O mesmo vale para as redes sociais, que cada vez mais tem servido como meio de divulgação de notícias que não são vinculadas na “mídia tradicional”, ou no que se refere à leitura, a existência dos livros digitais, que reconfigura o objeto livro, por modificar o suporte.

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